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Ciudadano

Abdenio Ribeiro

Cidadão

Tá vendo aquele edifício moço
Ajudei a levantar
Foi um tempo de aflição
Eram quatro condução
Duas prá ir, duas prá voltar
Hoje depois dele pronto
Olho prá cima e fico tonto
Mas me vem um cidadão
E me diz desconfiado
"Tu tá aí admirado?
Ou tá querendo roubar?"
Meu domingo tá perdido
Vou prá casa entristecido
Dá vontade de beber
E prá aumentar meu tédio
Eu nem posso olhar pro prédio
Que eu ajudei a fazer...

Tá vendo aquele colégio moço
Eu também trabalhei lá
Lá eu quase me arrebento
Fiz a massa, pus cimento
Ajudei a rebocar
Minha filha inocente
Vem prá mim toda contente
"Pai vou me matricular"
Mas me diz um cidadão:
"Criança de pé no chão
Aqui não pode estudar"
Essa dor doeu mais forte
Por que é que eu deixei o norte
Eu me pus a me dizer
Lá a seca castigava
Mas o pouco que eu plantava
Tinha direito a comer...

Tá vendo aquela igreja moço
Onde o padre diz amém
Pus o sino e o badalo
Enchi minha mão de calo
Lá eu trabalhei também
Lá foi que valeu a pena
Tem quermesse, tem novena
E o padre me deixa entrar
Foi lá que Cristo me disse:
"Rapaz deixe de tolice
Não se deixe amedrontar
Fui eu quem criou a terra
Enchi o rio, fiz a serra
Não deixei nada faltar
Hoje o homem criou asa
E na maioria das casas
Eu também não posso entrar
Fui eu quem criou a terra
Enchi o rio, fiz a serra
Não deixei nada faltar
Hoje o homem criou asas
E na maioria das casas
Eu também não posso entrar"

Ciudadano

Tá viendo ese edificio joven
Ayudé a levantar
Fue un tiempo de aflicción
Eran cuatro transportes
Dos para ir, dos para volver
Hoy después de estar listo
Miro hacia arriba y me mareo
Pero viene un ciudadano
Y me dice desconfiado
'¿Estás ahí admirando?
¿O quieres robar?'
Mi domingo está perdido
Voy a casa entristecido
Dan ganas de beber
Y para aumentar mi aburrimiento
Ni siquiera puedo mirar el edificio
Que ayudé a construir...

Tá viendo ese colegio joven
Yo también trabajé allí
Casi me rompo
Hice la mezcla, puse cemento
Ayudé a enlucir
Mi hija inocente
Viene hacia mí muy contenta
'Papá, me voy a inscribir'
Pero me dice un ciudadano:
'Niño descalzo
Aquí no puede estudiar'
Este dolor dolió más fuerte
¿Por qué dejé el norte?
Me puse a pensar
Allá la sequía castigaba
Pero lo poco que sembraba
Tenía derecho a comer...

Tá viendo esa iglesia joven
Donde el cura dice amén
Puse la campana y el badajo
Me llené la mano de callos
También trabajé allí
Allí sí valió la pena
Hay kermés, hay novena
Y el cura me deja entrar
Fue allí donde Cristo me dijo:
'Joven, deja de tonterías
No te dejes intimidar
Fui yo quien creó la tierra
Llené el río, hice la sierra
No dejé nada faltar
Hoy el hombre creó alas
Y en la mayoría de las casas
Yo tampoco puedo entrar
Fui yo quien creó la tierra
Llené el río, hice la sierra
No dejé nada faltar
Hoy el hombre creó alas
Y en la mayoría de las casas
Yo tampoco puedo entrar'

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