Vai toda a esmola que o dia não trouxe
Vai todo sorriso que, ao tempo, amargou-se
O pouso do pombo, a migalha do chão
Vai toda coberta que o frio atrapalha
E o fogo que dentro do peito é de palha
Aquece a fuga do sono e do pão
O vazio está cheio
De tudo o que falta
O vazio está cheio
De tudo o que falta
O vazio está cheio
De tudo o que falta
Vai a cara suja o muro e a parede
A boca que abre de raiva e de sede
A porta e o tempo que fecham sem dó
Vai o céu que chora se a nuvem desaba
Vai a madrugada que nunca se acaba
E a luz pouco importa se é poste ou de Sol
O vazio está cheio
De tudo o que falta
O vazio está cheio
De tudo o que falta
O vazio está cheio
De tudo o que falta
O vazio dos olhares, barrigas e bolsos
O vazio dos bares, esquinas e rostos
São tantas ausências nessa multidão
E tanto chão tropeçado a esmo
O próprio vazio é vazio de si mesmo
E já nem mais sabe qual era a razão
O vazio está cheio
De tudo o que falta
Está cheio
De tudo o que falta