No celeiro, à noite, o porco Major Velho gritou
Sobre o mundo cruel que o homem nos legou
O fazendeiro, o patrão, nosso tirano maior
Vive da miséria, da dor e do suor
Somos todos escravos, o chamado ecoou
Toda a vida dos bichos na opressão se ancorou
Os anéis, as correntes, o chicote sem dó
Sonhamos a terra livre, mas estamos só o pó
De um futuro de iguais, sem o jugo opressor
A semente plantada, o começo do horror
A fome e o cansaço, o estopim se acendeu
Os porcos, mais astutos, o plano concebeu
O grito de guerra, os cascos na lama
O dono e seus peões expulsos pela trama
A Granja do Solar mudou seu nome e sua lei
Tornou-se a Granja dos Bichos, livre do rei
Sete mandamentos, gravados no muro
A igualdade era a fé, o futuro era puro
Nenhum bicho andará em duas pernas, jamais
Toda a produção seria para nós, e tudo mais
O moinho de vento gira, mas não gira pra nós
Todos Iguais, gritamos com a mesma voz
Mas alguns são mais iguais que os outros
Porcos camaradas no poder, gemidos soltos
A casa é a mesma, o cheiro é distinto
Na luta das classes, um porco, um tirano no instinto
Entre o Bola-de-Neve (o sonho, a teoria)
E Napoleão (o punho, a tirania)
A luta era a alma do novo governo
Bola-de-Neve desenhava o moinho eterno
Prometendo energia, conforto e paz
Mas Napoleão urdia planos, um terror mais eficaz
Com a força dos cães, treinados no rigor
Expulsou Bola-de-Neve, rompendo o valor
A mentira e o medo tornaram-se a nova verdade
O início sombrio da nova crueldade
O cavalo proletário, de músculo e lealdade
Trabalhava dobrado pela comunidade
Trabalharei mais, seu lema de suor
A fé inabalável em um futuro melhor
Enquanto isso, Garganta, o porco orador
Distorcia os fatos com astuto ardor
Cada falha, cada erro, era culpa do rival
Do traidor expulso, a ameaça fatal
A ideologia sanguinária que buscou igualdade
Trouxe a tirania, a mentira, a fralde
O moinho de vento gira, mas não gira pra nós
Todos Iguais, gritamos com a mesma voz
Mas alguns são mais iguais que os outros
Porcos camaradas no poder, gemidos soltos
A casa é a mesma, o cheiro é distinto
Na luta das classes, um porco, um tirano no instinto
O Mandamento Santo, aos poucos, se apagou
E os porcos dormiram na cama que do patrão tomou
A fome regressou, a miséria se instalou
E o cavalo batalhador, doente, seu fim alcançou
Napoleão o vendeu para o abatedouro cruel
Comprando Whisky com o dinheiro infiel
Garganta convenceu que ele morreu em paz
Enquanto os porcos bebiam, em alegria mordaz
O ouro e a barganha, o acordo com o humano
Os porcos de pé, imitando o tirano
O muro rachou, a verdade se desfez
Sobrou apenas um lema, gravado por sua vez
O último Mandamento, a síntese vil
Todos os animais são iguais, mas alguns são mais
A Revolução instaurou a lei do terror
Os porcos e os homens, sentados à mesa com fervor
Dois inimigos outrora, duas ideologias rivais
Agora sem pactos secretos, se tornam iguais
A ovelha balindo um novo grito no ar
Quatro pernas bom, duas pernas melhor
O moinho de vento gira, mas não gira pra nós
Todos Iguais, gritamos com a mesma voz
Mas alguns são mais iguais que os outros
Porcos camaradas no poder, gemidos soltos
A casa é a mesma, o cheiro é distinto
Na luta das classes, um porco, um tirano no instinto