E Estamos Conversados
Eu não acho mais graça nenhuma nesse ruído constante
que fazem as falas das pessoas falando, cochichando e reclamando,
que eles querem mesmo é reclamar,
como uma risada na minha orelha, ou como uma abelha, ou qualquer outra coisa pentelha,
sobre as vidas alheias, ou como elas são feias,
ou como estão cheias de tanto esconderem segredos
que todo mundo já sabe, ou se não sabe desconfia.
Eu não vou mais ficar ouvindo distraido eles falarem deles e do que eles fariam se fosse com eles
e o que eles não fazem de jeito nenhum, como se interessasse a qualquer um.
Eles são: As pessoas. As pessoas todas, fora os mudos.
Se eles querem falar de mim, de nós, de nós dois,
falem longe da minha janela, por favor, se for para falar do meu amor.
Eu agora só escuto rádio, vitrola, gravador.
Campainha, telefone, secretária eletrônica eu não ouço nunca mais, pelo menos por enquanto.
Quem quiser papo comigo tem que calar a boca enquanto eu fecho o bico.
E estamos conversados.
Ya hemos hablado
Ya no encuentro gracia alguna en este constante ruido
que hacen las palabras de la gente hablando, susurrando y quejándose,
que lo único que quieren es quejarse,
como una risa en mi oído, o como una abeja, o cualquier otra cosa molesta,
sobre las vidas ajenas, o lo feas que son,
o lo llenas que están de tanto esconder secretos
que todo el mundo ya sabe, o al menos sospecha.
Ya no voy a quedarme escuchándolos distraído hablar de ellos y de lo que harían si fuera con ellos
y lo que no hacen de ninguna manera, como si le importara a alguien.
Ellos son: Las personas. Todas las personas, excepto los mudos.
Si quieren hablar de mí, de nosotros, de los dos,
hablen lejos de mi ventana, por favor, si van a hablar de mi amor.
Ahora solo escucho radio, tocadiscos, grabadora.
Timbre, teléfono, contestador automático ya no escucho nunca más, al menos por ahora.
Quien quiera hablar conmigo tiene que callar mientras cierro el pico.
Y ya hemos hablado.
Escrita por: Arnaldo Antunes / Paulo Tatit