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A Gramática da Violência

Astrikos Katoikos

A infância soletrou calibres
Antes da própria caligrafia
O assalto ganhou cidadania
A solidariedade perdeu utilidade

As avenidas não conduzem
Selecionam sobreviventes
Cada semáforo interrompido
Celebra um pacto inconveniente

Violência
E banalidade
Decadência
Da sociedade

A tragédia urbana aprendeu Teologia
Canonizou a desconfiança
A hospitalidade tornou-se fóssil
Exposta em painéis da lembrança

Cumprimentamos a suspeita
Com uma reverência involuntária
O semelhante virou hipótese
O receio, autoridade sanitária

Civilização armada de ausências
Império erguido sobre trincheiras
Chamam prudência aquilo que resta
Quando a coragem perde a linguagem

Civilização alfabetizada
No dialeto da intimidação
Toda fechadura acrescentada
Subtrai um homem da multidão

Violência
E banalidade
Decadência
Da sociedade

Os jornais negociam catástrofes
Com requinte de dialeto litúrgico
O horror recebe nova embalagem
Antes do próximo crepúsculo

A milícia jamais governa sozinha
Necessita de escribas e cenário
Toda barbárie bem-sucedida
Primeiro conquista o vocabulário

Não foi a bala
Foi a pedagogia
Não foi o cadáver
Foi o costume
Não foi a noite
Foi a resignação

Civilização armada de ausências
Museu da coragem passageira
Enquanto o medo for a tônica
Toda paz será estrangeira

Toda muralha pode proteger bens
Mas Jamais protegerá a consciência
A cidade não morreu de violência
Morreu de agressiva convivência

Violência
E banalidade
Decadência
Da sociedade

Escrita por: Marcelo Ribeiro Dantas