395px

A Morte Nos Espreita

Astrikos Katoikos

Desde o primeiro o choro no berço
A despedida firma residência
Cresce escondida entre os aniversários
Sem consultar qualquer consciência

Cada família conhece o seu dia
Toda cidade aprende esse rigor
Nenhum abraço se conserva para sempre
Logo virá a presença desse horror

Ela recolhe o riso das praças
Esvazia mesas de jantar
Interrompe cartas inacabadas
Sem explicar, sem negociar

Nem juramento, nem documento
Mudam a antiga determinação
Toda biografia permanece
Aberta à mesma interrupção

A morte nos espreita em cada passo
É a sombra que nos acompanha em toda idade
É a boca que nos devora lentamente com sua fome
E não há saída de sua terrível fatalidade

Cada criança recebe sem escolha
Um compromisso com a dissolução
O calendário apenas revela
Aquilo firmado ainda na gestação

Toda família perde um retrato
Todas as memórias conhecem o adeus
Nenhum convívio permanece intacto
Quando ela vem cobrar todos os seus

Nenhuma porta permanece fechada
Não há caminho que evite esse precipício
Ela percorre séculos inteiros
Com o mesmo passo desde o princípio

Os campos mudam, mudam os costumes
Mudam impérios, muda a estação
Só permanece inalterada
Sua absoluta determinação

A morte nos espreita em cada passo
É a sombra que nos acompanha em toda idade
É a boca que nos devora lentamente com sua fome
E não há saída de sua terrível fatalidade

ॐ त्र्यम्बकं यजामहे सुगन्धिं पुष्टिवर्धनम् |
उर्वारुकमिव बन्धनान्मृत्योर्मुक्षीय माऽमृतात् ||

Ela interrompe festas e colheitas
Dispensa títulos e distinção
Não reconhece fama ou prestígio
Nem aceita apelação

Toda fotografia envelhece
Os semblantes perdem o vigor
A última página permanece
À espera do derradeiro autor

Escrita por: Marcelo Ribeiro Dantas