Nas velhas vigas do casarão há um mistério
Sob o manto da poeira e do antigo altar
Cada parede ainda guarda o registro sério
De mestras ausentes que o tempo insiste em calar
Pelas janelas a névoa escorre densa e fria
O lago estagnado reflete o precipício em si
E a velha criada jura que na noite sombria
Viu uma prece afogada ecoando ali
As duas crianças caminham pelos corredores
Com rostos de cera e um brilho no olhar
Riem baixinho escondendo os seus temores
Como herdeiras de um mal que vai despertar
Outra volta no parafuso
Mais um degrau no altar
Cada quarto abriga
Um fantasma a rezar
Outra volta no parafuso
O segredo escrito no olhar
Há crianças sagradas
Aprendendo a profanar
No alto da torre uma estátua de metal escuro
Resiste contra o céu de cinza e vento
Olhos de vidro fitando o muro
Como um aviso de um antigo tormento
E a governanta, queimando em febre e delírio
Vê nos portões um caminho de pura vertigem
Como se a casa guardasse o seu martírio
Para apagar as lembranças de sua origem
Miles canta um verso que desafia o infinito
Flora colhe flores de inverno no jardim
Enquanto vultos nascidos de um velho mito
Descem as escadas num transe sem fim
Outra volta no parafuso
Mais um degrau no altar
Cada quarto abriga
Um fantasma a rezar
Outra volta no parafuso
O segredo escrito no olhar
Há crianças sagradas
Aprendendo a profanar
O espelho devolve um rosto que não é o dela
Um vulto que veste a moldura de solidão
Ninguém sabe se a mente cedeu na cela
Ou se os mortos governam a mansão
Máscaras brancas ocultam o jogo profano
O temor engole os segredos de cada irmão
Dois querubins ensaiando o perfeito engano
Sob as ordens de quem já virou assombração
Outra volta no parafuso
Mais um degrau no altar
Cada quarto abriga
Um fantasma a rezar
Outra volta no parafuso
O segredo escrito no olhar
Há crianças sagradas
Aprendendo a profanar