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Agenor e a Criatura do Lago

Astrikos Katoikos

Lá pros brejos do Ribeira, numa várzea de tabocal
Morava Agenor Batista num casebre de jornal
Tinha mania esquisita de varrer o barracão
Mesmo quando a ventania cobria tudo de novo o chão

Conversava com o cachorro em cochicho de novena
E dizia que água parada junta sombra que condena
Toda sexta ele pregava pano preto na janela
Pois jurava que luar forte acordava coisa velha

Ê Agenor, fecha a tramela, tem resmungo no banhado
Tem um tróço respirando nesse lodo encarangado
Ê Agenor, pega o facão, que essa noite vem desgraça
Tem dois olhos rente d'água farejando luz e fumaça

Toda noite lá no charco começava um rebentar
Feito panela esquecida fervilhando devagar
Nem cachorro ia pra beira, nem cavalo pro capim
E as garças mudavam rumo quando escutavam o estopim

Dona Mafalda afirmava ter ouvido junto ao brejo
Uma tosse cavernosa misturada com bocejo
Já o padre Jurandir trancava todo o quintal
Quando o vento vinha podre das grôtas do lamaçal

O prefeito da cidade deu risada da aflição
Chamou tudo de cachaça, loróta e invenção
Mas perdeu duas novilhas numa tarde de calor
Restando marcas estranhas perto d'água e corredor

Agenor pegou coragem mais por raiva que bravura
Pôs no bolso sal grosso, alho seco e rapadura
Foi sozinho rumo ao brejo sob raio vermelho
Com o cachorro Zulu resmungando atrás num enjoêiro

Ê Agenor, pisa macio, que esse brejo tem memória
Tem criatura sem nome declamando a própria história
Ê Agenor, reza baixinho, risca a cruz e se defende
Porque aquilo que mora não'água nem com reza se desprende

Quando viu surgindo o dorso lá no meio do aguaceiro
Agenor largou a pinga e tropeçou no candeeiro
A criatura era toda torta, cheia de limo e cicatriz
Com um casco rachadento e gengiva larga de raiz

Mas o pior daquele monstro, mais que escama ou podridão
Era o jeito que imitava tossidinha de cristão
Zulu arrepiou o pelo e começou a ganir fino
Feito alma escutando passo vindo do descaminho

Agenor puxou o gatilho quase morto de pavor
O estampido bateu longe pelos matos sem rumôr
O bicho então sumiu não'água levantando um certo fedor
Parecido com couro de novilha esquecida no calor

Nunca mais sumiu galinha, nem cavalo de patrão
Mas Agenor ficou cismado com barulho de caldeirão
Como não é besta, evita lago, brejo escuro ou temporal
Pois afirma que água funda guarda nome de mortal

Ê Agenor, velho teimoso, escapou de padecer no lamaçal
Viu um troço sem batismo se erguendo no brejal
Ê Agenor, homem da várzea, de espingarda e lampião
Que encarou numa lagoa coisa fora da criação

Ê Agenor, homem do brejo, de espingarda e solidão
Que encarou numa lagoa o avesso da criação

Escrita por: Marcelo Ribeiro Dantas