Nada caiu da prateleira
Nada deixou de funcionar
Os mesmos ônibus passam
No mesmo horário regular
As chaves continuam servindo
As malditas contas chegam pelo correio
Mas existe um parafuso frouxo
Em algum ponto do passeio
Não consigo apontar sua origem
Nem dar um significativo nome
É como uma rua conhecida
Vista da margem errada da ponte
Os prédios conservam suas janelas
Aqueles jardins ali guardam a estação
Mas alguma medida interna secreta
Mudou de repente de inclinação
Talvez fosse um entendimento
Quem sabe seria uma triste poema
Talvez fosse apenas cinco minutos
Caminhando pela praia em Ipanema
Não existe resposta
Não percebo acusação
Só esta sensação de arrependimento
Sem nenhuma localização
Angústia
Às vezes surge no almoço
Enquanto me sirvo de comida no restaurante
É comum enquanto procuro
Um livro qualquer na estante
Não chega como uma lembrança
Nem como uma revelação
Parece mais uma biografia
Que perdeu totalmente a função
Conheço histórias de tragédia
Existem tantos casos de perdão
A minha sensação não cabe direito
Em nenhuma classificação
Porque nada foi de fato destruído
Nada chegou ao derradeiro final
Mesmo assim alguma peça
Não voltou mais ao lugar original
Talvez fosse um entendimento
Quem sabe seria um triste poema
Talvez fosse apenas cinco minutos
Caminhando pela praia em Ipanema
Não existe resposta
Não percebo acusação
Só esta sensação de arrependimento
Sem nenhuma localização
Angústia
É muito triste quem carrega fantasmas
Há quem carregue antigos afetos
Eu tenho carregado uma pergunta
Que deixa todos meus dias inquietos
E quanto mais os anos passam
Menos importa alguma solução
Permanece apenas o peso
Daquilo que não teve a devida compreensão
Talvez fosse um entendimento
Quem sabe seria um triste poema
Talvez fosse apenas cinco minutos
Caminhando pela praia em Ipanema
Não existe resposta
Não percebo acusação
Só esta sensação de arrependimento
Sem nenhuma localização