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Ave Nefanda

Astrikos Katoikos

Num antro ínfero de basalto vitrificado
Jaz a criatura de plumário calcinado
Ave nefanda de órbita sulfúrea
Grasnado em salmodia de matéria espúria

Tarsos retorcidos em garra fuliginosa
Rostro ferríneo em lança sinuosa
Penugem em cárie, penacho empedernido
Umbral profundo de hálito fedido

Círculos concêntricos de fogo abatido
Lampejo mortiço em lago entorpecido
Almas em hordas pelas lavas, arrastadas
Vozes em náusea, sílabas truncadas

Caminhando pelo inferno
Naquele círculo profundo toda sentença é de morte
Tem uma ave maldita que aterroriza até o mais forte
No lamaçal pútrido todo juízo se perde
O canto te devora e sua memória se converte

Caminhando pelo inferno
Naquele círculo profundo toda sentença é de morte
Tem uma ave maldita que aterroriza até o mais forte
No lamaçal pútrido todo juízo se perde
O canto te devora e sua memória se converte

A ave dilacera o éter viscoso
Com impulso torvo e humor nervoso
Deglute lembranças em movimento coagulado
E expele resíduo de um pesadelo arruinado

No giro espectral do abismo latente
Paira sobre ossadas de vício pungente
Cada bater de asa é um édito funesto
Sentença sem apêlo no séquito dantesco

Um viandante perdido de fronte cansada
Ergue a pupila na treva cerrada
Vê no penacho o símbolo do demônio
E entende tarde o pacto mais medonho

Caminhando pelo inferno
Naquele círculo profundo toda sentença é de morte
Tem uma ave maldita que aterroriza até o mais forte
No lamaçal pútrido todo juízo se perde
O canto te devora e sua memória se converte

Quando a criatura recolhe o fragor
Resta no antro um vestígio de pavor
A ave maldita some no breu asqueroso
Mas o ciclo retorna mais tenebroso

Caminhando pelo inferno
Naquele círculo profundo toda sentença é de morte
Tem uma ave maldita que aterroriza até o mais forte
No lamaçal pútrido todo juízo se perde
O canto te devora e sua memória se converte

No meio da caminhada de minha vida, me encontrei numa floresta escura
Pois a via reta estava perdida
E tudo que eu percebia era penúria

Caminhando pelo inferno
Naquele círculo profundo toda sentença é de morte
Tem uma ave maldita que aterroriza até o mais forte
No lamaçal pútrido todo juízo se perde
O canto te devora e sua memória se converte

Escrita por: Marcelo Ribeiro Dantas