A toalha chegou primeiro
Que o salário do carpinteiro
O lustre veio do estrangeiro
Antes do pão do cozinheiro
A festa abriu seus vitrais
Com discursos cerimoniais
E um homem contou moedas
Para remédios essenciais
A locomotiva partia
Cortando vales e serrania
Mas quem assentou cada trilho
Morreu sem aprender geografia
O mapa cresceu colorido
Nos gabinetes da capital
Enquanto a fome escrevia
Seu relatório mensal
Brasil dos humilhados
Dos que fizeram a colheita
Dos que ficaram na cancela
Enquanto seguia a carreta
Dos que levantaram o sobrado
Janela, varanda e beiral
E receberam por lembrança
Apenas a poeira do avental
Houve quem abrisse estradas
Com o próprio corpo por ponte
Enquanto outro recebia
O pomposo retrato na fonte
Houve quem cortasse pedra
Até perder a precisão
E visse a obra concluída
Sem figurar o nome na inscrição
Houve quem colhesse o fruto
Sem provar da refeição
Quem construísse a casa alheia
E voltasse à rua de escuridão
Brasil dos humilhados
Dos que fizeram a colheita
Dos que ficaram na cancela
Enquanto seguia a carreta
Dos que levantaram o sobrado
Janela, varanda e beiral
E receberam por lembrança
Apenas a poeira do avental
Houve açúcar nas cristaleiras
Houve banquetes e carreiras
Houve carruagens reluzentes
Houve fortunas permanentes
E houve uma costureira anônima
Costurando até a visão falhar
Para que alguém atravessasse bailes
Sem perceber quem viveu de bordar
Brasil dos humilhados
Dos que morreram sem registro
Dos que moveram este mundo
Sem aparecer em nenhum livro
Brasil dos humilhados
Dos que ficaram sem brasão
Mas carregaram esta terra
Nos calos da própria mão
Brasil dos humilhados
Dos esquecidos do parlamento
Aquilo que chamam de pátria
Nasceu de todo seu sofrimento