395px

Catábase

Astrikos Katoikos

Senhor Exu Capa Preta desceu pela arcada
Onde a pedra suava fuligem encarniçada
Debaixo de uma abóbada negra, convulsa, sideral
Um sino de estanho tangia como funeral

No primeiro fosso, sob a cúpula nefasta
A multidão dos réus rodava, lívida e vasta
Cada fronte trazia o ferrete da sentença
Cada nome jazia sob o peso da penitência

Mais fundo, o basalto destilava escarlate
E o enxofre subia num vapor de combate
Harpias desciam sobre os olhos dos réus
Enquanto os brados feriam até os próprios céus

Exu passou por um pórtico antigo, de basalto fendido
E logo a seguir por um mármore milenar, carcomido
No umbral, um guardião de semblante severo
Erguia uma chave feita de osso e ferro

Procuro uma alma chamada Solveig, falou ao carcereiro
Ele abriu um sorriso de cínico açougueiro
Milhões nesta furna suplicam clemência
Cada súplica aviva o rigor da sentença

No Estige purpúreo, de corrente espumante
Uma barca sem remos avançava, vacilante
O barqueiro, de manto sombrio e carmim
Fitou o Senhor Capa Preta e apontou para o fim

No fundo das águas, sob sete correntes
Jazia uma sombra cercada de serpentes
Seu nome, lavrado na pedra funerária
Guardava uma sentença de memória milenária

Exu tomou o grilhão, negro, consagrado
E o metal cedeu sob o pulso levantado
O abismo rugiu, a montanha estremeceu
E um coro de Fúrias atrás dele gemeu

Subiu por galerias de âmbar e imenso granito
Sob gases ácidos, num ar totalmente maldito
Cada degrau deixava nos ossos suas marcas
Cada portão rangia como uma a boca cravada de farpas

Atrás, o inferno cerrava as mandíbulas
À frente, a noite erguia suas fúnebres penínsulas
Ninguém ousava voltar-se à garganta escancarada
Onde a treva o seguia, feroz e desvairada

Quando a manhã surgiu na serra distante
Solveig resgatada abriu os olhos, exausta, vacilante
Nenhuma trombeta rompeu a vastidão do céu
Nenhuma voz celeste desatou seu véu

Exu junto à senda, calado, permaneceu
Enquanto a luz nas pedras lentamente cresceu
Há resgates que nenhum altar jamais proclama
Uma alma sai do inferno ainda marcada pela chama

Escrita por: Marcelo Ribeiro Dantas