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Escaravelhos

Astrikos Katoikos

Pelo macegal crestado de aríngeas e junquilhos
Um escaravelho conduz sua esfera de folhedo
Não se importa com cataventos, marcos, nem trilhos
Segue o rumo inscrito no cerne do arvoredo

Há resinas adormecidas na cortiça fendilhada
E micelas urdindo tramas sob a manta de caruma
A criatura perscruta a gleba empastada
Recolhendo vestígios de uma suma

Junto às ciperáceas, ao pé da velha sorveira
Descansam páleas, glumas e sementes abortadas
Tudo ingressa na jornada da couraça oleira
Na esfera feita de estações desmanteladas

Esses escaravelhos
Guardiães da serrapilheira
Monges de uma escrita sem pergaminho
Lavradores da poeira
Na marga
Na turfa
Na vareira
Empurram luas de matéria finda
Pela extensão da ladeira

A lanugem do cardo adere ao tegumento
Um odor de mastrosina paira pela várzea
Nenhum arauto proclama semelhante movimento
Nenhuma crônica registra semelhante audácia

Ritidomas revelam gomas de coloração indecisa
Drusas cintilam no seio de um barranco
O escaravelho prossegue por essa divisa
Levando um hemisfério de detritos no flanco

Esses escaravelhos
Guardiães da serrapilheira
Monges de uma escrita sem pergaminho
Lavradores da poeira
Na marga
Na turfa
Na vareira
Empurram luas de matéria finda
Pela extensão da ladeira

Quando outubro dispersa os últimos pendões
Resta sua procissão pelas leiras exauridas
Ali trafegam, sem brasões nem celebrações
Os arquivistas das matérias consumidas

Escrita por: Marcelo Ribeiro Dantas