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Guerra dos Farrapos

Astrikos Katoikos

Ó Rio Grande, veste tua chama
Teu sangue corre, mas não reclama
A terra canta com voz ferida
A pátria é sonho, mentira erguida

Ergueu-se o povo de chão e carne
No pó das coxilhas, destino e alarme
De lança em punho, nas madrugadas
Rompeu-se o sul em almas rasgadas

Choveu na fronte o suor da fome
Mas cada homem defendeu seu nome
E o vento sopra por sobre os campos
Rezas e prantos, canhões e cantos

Ó Rio Grande, veste tua chama
Teu sangue corre, mas não reclama
A terra canta com voz ferida
A pátria é sonho, mentira erguida

No campo ruivo do Passo Fundo
Morrer foi pouco pra um segundo
As lanças curvam-se, o sol declina
E o tempo dorme na campina

As mães rezavam em voz contida
Costurando o luto com a vida
E os filhos iam, sem cor, sem trégua
Na sina bruta, na carne régua

Ó Rio Grande, veste tua chama
Teu sangue corre, mas não reclama
A terra canta com voz ferida
A pátria é sonho, mentira erguida

E Bento sonha nas madrugadas
As mãos manchadas de alvoradas
Garibaldi ouve no mar distante
A memória da morte latejante

E cada farrapo é uma bandeira
Rasgada ao vento, na mesma esteira
Dois mundos gritam, e a mesma dor
Veste o gaúcho de amargo ardor

Ó Rio Grande, veste tua chama
Teu sangue corre, mas não reclama
A terra canta com voz ferida
A pátria é sonho, mentira erguida

Quando o clarim da derrota soa
Ninguém se entrega, o chão perdoa
Da morte nasce o que o tempo inventa
Um Sul que sangra e se reinventa

E entre bandeiras queimadas, mortas
Restam memórias nas almas tortas
O céu devolve o que a guerra toma
E o vento sopra: A honra é soma

Ó Rio Grande, veste tua chama
Teu sangue corre, mas não reclama
A terra canta com voz ferida
A pátria é sonho, mentira erguida

E sobre o pó das coxilhas nuas
Ergue-se o canto das almas suas
Guerra perdida, vitória humana
Rio que arde, mas nunca engana

Escrita por: Marcelo Ribeiro Dantas