395px

O Patologista

Astrikos Katoikos

Chegava antes da alvorada
Quando a rua ainda dormia
Girava a chave na fechadura
E começava mais um pesado dia

A lâmpada branca do necrotério
Não distinguia juiz de ladrão
E ele buscava nos tecidos
A última frase de cada questão

Havia marcas que falavam
Mais do que qualquer depoimento
Havia quedas que escondiam
Outra história sob o pavimento

Conhecia a linguagem muda
De cada osso e cicatriz
Mas certas dores continuavam
Sem responder o que se diz

A ciência lhe dava medidas
Datas, causas e direção
Mas certas ausências zombavam
De toda classificação

Saiu de repente um dia
Não voltou mais
Saiu decidido
Ficaram os laudos para trás
Deixou o jaleco jogado
Foi sem aviso ou explicação
Se mandou no meio da tarde
Deixando toda a instrumentação
Ele se foi!
Assim, de supetão

Décadas vendo despedidas
Décadas assistindo ao terminar
Até que os novos cadáveres
Já pareciam lhe aguardar

E as mesmas portas
Os mesmos passos
O mesmo relógio no salão
Como se o prédio lentamente
Lhe copiasse a expressão

Uma agonia
A estafa, a desilusão
O desespero, a melancolia
Aquele horror com depressão

Mudaram mesas e arquivos
Transferiram móveis de lugar
Mas o café da copa antiga
Parecia ainda esperar

Ninguém falou seu nome alto
Quem poderia parar a repartição?
A vida seguia seu trajeto
Com formol e excesso de reflexão

Saiu de repente um dia
Não voltou mais
Saiu decidido
Ficaram os laudos para trás
Deixou o jaleco jogado
Foi sem aviso ou explicação
Se mandou no meio da tarde
Deixando toda a instrumentação
Ele se foi!
Assim, de supetão

Chegaram mais mortos na semana
Eram muitos corpos no verão
Chegavam defuntos no inverno
Sempre como em qualquer ocasião

Mas uma cadeira vazia
Guardava a última impressão
Quem conhecia tantas mortes
Teve que sumir dali sem explicação

Saiu de repente um dia
Não voltou mais
Saiu decidido
Ficaram os laudos para trás
Deixou o jaleco jogado
Foi sem aviso ou explicação
Se mandou no meio da tarde
Deixando toda a instrumentação
Ele se foi!
Assim, de supetão

Escrita por: Marcelo Ribeiro Dantas