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Viagem ao Centro da Terra

Astrikos Katoikos

O professor perdeu a razão
Quando encontrou a inscrição
Quem romper a última camada
Verá o avesso da criação

Riram dele nas academias
Chamaram tudo de ficção
Mas eu segui sua trilha
Montanha abaixo, naquela expedição

As rochas mudavam de idade
A cada centena de metros
Séculos passavam depressa
Entre corredores secretos

Vi mares presos na pedra
E muitas florestas sob pressão
Havia mamutes fossilizados
Dormindo na escuridão

Não existe inferno
Muito menos paraíso
Há algo muito mais antigo
Debaixo de todo aquele granito
Não existe purgatório
Muito menos salvação
Há uma boca gigantesca
Devorando cada continente e nação

Ao atingir grandes profundezas
A gravidade começou a falhar
Fragmentos de montanhas flutuavam
Sem cair nem levantar

Havia pequenas luas internas
Girando dentro de um salão
Como asteróides abandonados
Numa bizarra visão

Então encontrei o núcleo
Não era feito de metais em acreção
Não vi nenhum ímã imenso
Nem magma em erupção

Era uma esfera coberta
Por bilhões de rostos humanos
Todos imóveis, apenas me olhando
Uma imagem pior do que os pesadelos mais insanos

Cada face possuía traços
De povos desaparecidos
Caçadores do paleolítico
Reis, soldados e mendigos

Bilhões de olhos me olhavam
Sem demonstrar hostilidade
Era como se a espécie inteira
Fizesse parte daquela entidade

Não existe inferno
Muito menos paraíso
Há algo muito mais antigo
Debaixo de todo aquele granito
Não existe purgatório
Muito menos salvação
Há uma boca gigantesca
Devorando cada continente e nação

Então compreendí o segredo
A Terra não produz a vida
A Terra a recolhe
Cada geração desaparecida

Cada império reduzido ao pó
Cada nome esquecido pela história
Desce para aquele lugar
Ali está nossa derradeira memória

De repente a esfera começou a abrir
Milhões de bocas ao mesmo tempo
Nenhuma palavra surgiu
Mesmo assim entendi o terrível evento

A superfície é apenas pele
Oceanos são suores expelidos
Montanhas são cartilagens
Precipícios são poros inauditos

Retornei sem dizer uma palavra
Quem acreditaria? Toda narração viraria lenda
Mas às vezes acordo durante a noite
Com a impressão de ouvir mastigação lenta

O saber sobre as profundezas
Há conhecimento que deve ser negado
O saber do planeta inteiro
Revelou um hediondo ser esfomeado

Não existe inferno
Muito menos paraíso
Há algo muito mais antigo
Debaixo de todo aquele granito
Não existe purgatório
Muito menos salvação
Há uma boca gigantesca
Devorando cada continente e nação

Não existe inferno

Escrita por: Marcelo Ribeiro Dantas