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Olga

Bernardo Sena

Na passarela, o povo passava
E Olga na banca, só observava
Um olho no troco, outro na sombrinha
Cinco reais! Ecoava a rainha!

Vendia boné, vendia brinco
E me ensinava a soltar o grito
Fala alto, menino! Tem que chamar!
Aprendi com ela a me apresentar!

Hô Olga, nessa passarela passou tudo
Menos a saudade sua que não passa
Você me fez forte sem pedir desgraça
Na feira da vida, foi minha lição
Você me ensinou a ter coração

Hô Olga, com chuva ou com Sol
Você era brisa e também era farol
Se não tem troco, vai no cobrador
E eu corria feito aprendiz do amor

Quando o céu nublava devagar
A gente sorria, ia chover pra faturar!
E quando o céu nublava devagar
A gente sorria, ia chover pra faturar!

Sentada firme em sua bicicleta
Rosto sereno, alma completa
Freguês chegava, pedia um preço
E ela dizia com aquele apreço

Cinco no brinco, dez no boné
Mas se levar dois, eu faço como é!
Eu via ali mais que uma patroa
Era minha mestra, mulher boa à toa

Hô Olga, você está no meu som
Saudade sua é canção!
Que canta na rua, que mora no chão
Das minhas primeiras tentativas de ser
Você foi presente sem me fazer sofrer

Torcia pra chover e o povo correr
Pra comprar sombrinha e a gente vender
Torcia pra chover e o povo correr
Pra comprar sombrinha e a gente vender

Hô Olga, sua voz ficou
Nos ônibus indo, nos gritos que dou
Sombrinha cinco reais! Ainda ouço soar
Na curva da vida, você vai estar Sombrinha cinco reais

Hô Olga, quando me viu de uniforme
Dê contrato na mão
Fiquei com o coração
Dividido no vão
Mas você sorriu, não cobrou despedida
Me deu um abraço, me abençoou na partida

Hô Olga, te canto com fé e calor
Na rua ou no além, você tem valor
Vendeu bijuteria, vendeu dignidade
Foi minha madrinha de verdade

Hô Olga
Na passarela ficou teu cheiro
E em mim, teu amor verdadeiro
E em mim, teu amor verdadeiro

Escrita por: Bernardo Nobre Soares de Sena