395px

The Shoulders Carry the World

Carlos Drummond de Andrade

Os Ombros Suportam o Mundo

Chega um tempo em que não se diz mais: Meu Deus
Tempo de absoluta depuração
Tempo em que não se diz mais: Meu amor
Porque o amor resultou inútil
E os olhos não choram
E as mãos tecem apenas o rude trabalho
E o coração está seco

Em vão mulheres batem à porta, não abrirás
Ficaste sozinho, a luz apagou-se
Mas na sombra teus olhos resplandecem enormes
És todo certeza, já não sabes sofrer
E nada esperas de teus amigos

Pouco importa venha a velhice, que é a velhice?
Teus ombros suportam o mundo
E ele não pesa mais que a mão de uma criança
As guerras, as fomes, as discussões dentro dos edifícios
Provam apenas que a vida prossegue
E nem todos se libertaram ainda
Alguns, achando bárbaro o espetáculo
Prefeririam (os delicados) morrer
Chegou um tempo em que não adianta morrer
Chegou um tempo em que a vida é uma ordem
A vida apenas, sem mistificação

The Shoulders Carry the World

There comes a time when one no longer says: My God
A time of absolute purification
A time when one no longer says: My love
Because love has become useless
And the eyes do not cry
And the hands only weave rough work
And the heart is dry

In vain women knock on the door, you will not open
You stayed alone, the light went out
But in the shadow your eyes shine huge
You are all certainty, you no longer know how to suffer
And you expect nothing from your friends

It matters little if old age comes, what is old age?
Your shoulders carry the world
And it weighs no more than a child's hand
The wars, the famines, the arguments inside the buildings
Only prove that life goes on
And not everyone has been freed yet
Some, finding the spectacle barbaric
Would prefer (the delicate ones) to die
There has come a time when it is no use to die
There has come a time when life is an order
Life alone, without mystification

Escrita por: Carlos Drummond de Andrade