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Casa de Caboclo

Carol Valentim

Casa de Caboclo

Seja bem-vindo nessa casa de caboclo
O que eu tenho é muito pouco
Aqui nesse fim de estrada
Tem um ditado aqui no nosso recanto
Que o pouco com Deus é muito
E o muito sem Deus é nada

Não repare minha estrada esburacada
Ela é trilha de boiada, ela é rota de tropeiro
Quando chove é uma lama grudadeira
Quando é Sol vira poeira, parecendo um fumaceiro

Seu carro, moço, é o primeiro que aparece
Meu cachorro não conhece
Nunca viu um trem assim
Pode até parece surpresa pro senhor
Mas o progresso passou
E acho que esqueceu de mim

A minha água vem da fonte, não tem cano
Café coado no pano, meu açúcar é rapadura
Mas é da boa, feita de cana caiana
O melado dessa cana adoça qualquer margura

Se o senhor não tá com pressa, eu vou mandar
Minha velha preparar um franguinho com quiabo
Aqui na roça eu não tenho o tal do uísque
Pra abrir o apetite, eu vou buscar um esquenta-rabo

Seu carro, moço, é o primeiro que aparece
Meu cachorro não conhece
Nunca viu um trem assim
Pode até parece surpresa pro senhor
Mas o progresso passou
E acho que esqueceu de mim

Agora que a gente já forrou o peito
Se quiser eu dou um jeito pro senhor fazer o quilo
Não se preocupe, não tem barulho de nada
Aqui na minha morada é só passarinho e grilo

Tem uma coisa que eu vou pedir pro senhor
Pra me fazer um favor na hora que for embora
Feche a porteira que me serve de escudo
Pra proteger o meu mundo desse mundo lá de fora

Seu carro moço é o primeiro que aparece
Meu cachorro não conhece
Nunca viu um trem assim
Pode até parece surpresa pro senhor
Mas o progresso passou
E acho que esqueceu de mim

Casa de Caboclo

Bienvenido a esta casa de caboclo
Lo que tengo es muy poco
Aquí, al final de la carretera
Hay un dicho en nuestro rincón
Que poco con Dios es mucho
Y mucho sin Dios es nada

No te fijes en mi camino lleno de baches
Es sendero de ganado, ruta de arriero
Cuando llueve es un barro pegajoso
Cuando sale el sol se convierte en polvo, pareciendo una neblina

Su auto, señor, es el primero que veo
Mi perro no lo conoce
Nunca ha visto un tren así
Puede parecer una sorpresa para usted
Pero el progreso pasó
Y creo que me olvidó

Mi agua viene de la fuente, no de una tubería
Café colado en tela, mi azúcar es panela
Pero es de buena calidad, hecha de caña caiana
La melaza de esta caña endulza cualquier amargura

Si no tiene prisa, le pediré a mi esposa
Que prepare un pollo con okra
Aquí en el campo no tengo whisky
Para abrir el apetito, buscaré un aguardiente

Su auto, señor, es el primero que veo
Mi perro no lo conoce
Nunca ha visto un tren así
Puede parecer una sorpresa para usted
Pero el progreso pasó
Y creo que me olvidó

Ahora que hemos llenado el estómago
Si quiere, puedo arreglar para que pese algo
No se preocupe, no hay ruido alguno
En mi hogar, solo hay pájaros y grillos

Hay algo que le pediré, señor
Que haga un favor cuando se vaya
Cierre la puerta que me sirve de escudo
Para proteger mi mundo de ese mundo allá afuera

Su auto, señor, es el primero que veo
Mi perro no lo conoce
Nunca ha visto un tren así
Puede parecer una sorpresa para usted
Pero el progreso pasó
Y creo que me olvidó

Escrita por: Alexandre / Rick