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Carona De Professora

Cidinha de Almeida

Cinco e meia da manhã
Mal o dia clareou
Na beirada de uma estrada
Uma professora parou
Se o ônibus já tinha ido
Não adiantava chorar
Quem tinha aluno esperando
Dava um jeito de chegar

Passava carro, caminhão
Ela fazia sinal
Às vezes vinha uma carona
Às vezes um temporal
E quem pensa que dar aula
Começava ao entrar na escola
Não conhece a professora
Que já chegava com história

Ô, minha filha, vai com fé
Que hoje tem aula outra vez
Se não couber lá na frente
Lá atrás talvez dê pra três
Tem poeira, barro e chuva
Tem buraco pelo chão
Não precisa o nome da santa
Pra chegar já é milagre, então

Uma colega descobriu
Um segredo sensacional
Põe a moça lá na frente
Que a carona vem ligeiro

Ela acenava na estrada
O motorista encostava
Pensando levar somente uma
Um monte de mulher chegava

E não mostrou nem as pernas
Não precisou produção
Era uma professora à vista
E uma turma de prontidão

Ô, professora, faz sinal
Que alguém há de parar
Uma aparece na estrada
Cinco começam a embarcar
Quando o motorista entende
Como funciona a operação
Já virou transporte escolar
Sem nem pedir contratação

Teve uma que chamou colega
Pra não viajar sozinha
Queria só companhia
Pra enfrentar aquela linha
A viagem foi dando assunto
O coração entrou no meio
Ela procurava companhia
Arrumou casamento alheio

Teve um dia em que disseram
Minha filha, aqui não dá
A cabine estava cheia
Não tinha onde se sentar

Mas professora é professora
Sempre encontra solução
Foi em cima de uns tijolos
Sacolejando no caminhão

Outra vez sobrou atrás
Junto ao povo da estrada
No meio daquela viagem
Veio uma chuva danada
Chegou igual pinto molhado
Da cabeça até o pé
Uma servente emprestou roupa
Vem cá, professora, mulher

Quando voltou para casa
Veio logo a interrogação
Menina, que roupa é essa?
O que houve nesse mundão?

Tomei um banho de chuva
Roupa emprestada eu vesti
E antes que alguém se preocupe
Já passei no posto daqui

Ô, minha filha, vai com fé
Que amanhã começa outra vez
Poeira hoje, chuva amanhã
E sabe Deus o que vem depois
Quem vê professora na escola
Com seu livro e seu giz na mão
Nem imagina a novela
Que foi conseguir condução

Uma perdeu o seu ônibus
E foi pra estrada esperar
Um senhor parou o carro
E resolveu perguntar

Moça, você é tão bonitinha
Não tem medo de andar assim?
Ela pensou: Lá vem cantada
Mas não era bem o fim

É que você me lembra as filhas
Por isso vim perguntar
Fico pensando quando são elas
Que precisam de uma carona arranjar

E a professora foi seguindo
Mais uma história pra coleção
Na estrada a gente encontra
Medo, cuidado e proteção

E teve professora ainda
Que dava aula em Terra Santa
Quando alguém soube do nome
Nossa Senhora, que chique, encanta

Chique? Pensou a coitada
Com poeira até no cabelo
Parece que estou no aeroporto
Só faltou buscar a mala primeiro

Hoje tem estrada asfaltada
Carro passa sem sacudir
Mas muita professora sabe
O que enfrentou pra conseguir

Teve barro, teve poeira
Teve chuva e caminhão
Teve gente que abriu a porta
Teve gente que estendeu a mão

Ô, professora, conta a história
Não deixa o tempo apagar
Antes de chegar à escola
Já tinha muito pra contar
Se hoje a estrada está tranquila
Houve um tempo de provação

Não precisa o nome da santa
Nem o nome da professora, não
Basta contar o milagre
De chegar pra dar a lição

Escrita por: Maria Aparecida de Almeida