395px

Poema da Minha Terra

Delmiro Barros

Eu nasci lá no recanto
Do sertão que amo tanto
Onde o céu desdobra o manto
Feito de rendas de anil

Onde o firmamento extenso
É um grande espelho suspenso
Refletindo o rosto imenso
Da minha pátria, o Brasil

Criei-me lá na fazenda
Lá foi minha velha tenda
Onde escutei a legenda
Das coisas coloniais

Cantadores, violeiros
Papafigo, cangaceiros
Caçadores e vaqueiros
Reino encantado e outros mais

A minha casa paterna
Não é a casa moderna
Onde somente governa
Gente de aristocracia

É um casarão de biqueira
De esteio e de cumeeiras
De travessões e soleiras
Linha, ripa e caibaria

É um casarão barrentio
De labrojeiro feitio
Desconforme, luzidio
Minado de rubra cor

As suas fulgentes telhas
Flamejam como as centelhas
Dessas lágrimas vermelhas
Que o Sol derrama, ao se pôr

Em frente a casa um baixio
Onde um sonolento rio
Descansa o dorso macio
Numa esteira de cristal

Naquele terreno vasto
Onde a terra tem mais pasto
Onde o Brasil é mais casto
Eu vi meu berço Natal

Ah! Que primorosas cenas
Quando nas tardes amenas
Um pavão abria as penas
Iluminando o quintal

Onde o vaqueiro desposto
Num cavalo bem composto
Entre paus maneja o rosto
Num drama fenomenal

Ah! Meu tempo de alegria
Quando bebendo poesia
De calça curta, eu corria
As margens do Pajeú

Comendo jabuticaba
Melão, mamão e goiaba
Cambuí, jambo e quixaba
Maracujá e umbu

Ah! Meu tempo de menino
Tempo de bem pequenino
Que a minha vida era um hino
Cantando no coração

Tempo da primeira escola
Da arapuca, da gaiola
Do berimbau, da viola
Da burrica e do pião

De manhã, bem cedo eu ia
Reparar se a vacaria
Estava em paz no curral

Depois revia ligeiro
As cabras lá no chiqueiro
Visitava o galinheiro
E percorria o pombal

Esses quadros que aqui pinto
São quadro que não tem fim
Meu Deus, quanto orgulho sinto
Em poder dizer assim

Nasci fintando as colinas
Onde as águas cristalinas
Espalham pelas campinas
O pranto que o céu chorou

Onde a terra forma um adro
Mostrando a risco de esquadro
O mais invejável quadro
Que a mão de Deus desenhou

Ah! Meu tempo de fartura
De queijo e de rapadura
De leite e manteiga pura
Coalhada grossa, escorrida

Tempo do cascão do queijo
O manjar do sertanejo
Oh velho tempo que vejo
Retratado em minha vida

No meu sertão altaneiro
Foi aonde eu vi primeiro
Um cantador violeiro
Dedilhando uma canção

Fazendo da alma, cigarra
Da garganta uma guitarra
Da vida uma eterna farra
E do Brasil, um coração