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O Último Sábado

Elian Solas

Foi num sábado calmo demais
Daqueles que enganam o coração
O Sol batia como sempre bate
Mas algo não cabia na canção

A mesa posta, o riso fácil
O tempo andando devagar
Tudo bonito, perfeito demais
Pra quem já aprendeu a desconfiar

Eu senti no corpo antes da mente
Um silêncio estranho no olhar
Era paz demais pra ser verdade
Era o velho eu tentando ficar

E eu deixei morrer ali
Sem briga, sem pedir perdão
Enterrei o que me mantinha
Preso na mesma repetição

Não foi você, não foi ninguém
Foi só o fim de uma versão
Que precisava desse dia
Pra ter o último coração

Eu sorri como sempre sorria
Mas já não era igual
O gesto era o mesmo de antes
Mas o fundo, era final

As palavras vinham bonitas
Mas vazias de intenção
Era o corpo se despedindo
De um padrão que virou prisão

Eu vi a cena de fora
Como quem aprende a enxergar
Quando tudo parece perfeito
É onde a mentira gosta de morar

E eu deixei morrer ali
Sem drama, sem explicação
O amor que pedia migalha
E chamava isso de conexão

Não foi perda, foi passagem
Não foi queda, foi direção
Aquele sábado levou com ele
O último medo de dizer não

Hoje eu sei
Que o que acaba dói menos
Do que viver sem se sentir

Hoje eu sei
Que amar também é soltar
Quando o amor não inclui a si

E eu deixei morrer ali
O personagem que implorava atenção
Ficou o homem que escolhe
A própria respiração

Se algum dia eu amei de verdade
Foi quando parei de insistir
Naquele sábado eu perdi um padrão
E comecei, enfim, a existir

Não foi um adeus falado
Foi um silêncio que ensinou
Que às vezes o fim mais bonito
É aquele que ninguém notou

Quem me conheceu no caos
Só viu o que o caos deixava mostrar

Cada pessoa só merece
O que eu posso dar em paz
Não é sobre quem acompanha
É sobre quem eu sou, afinal

O velho eu ficou naquele dia
Teve seu último suspiro ali
Hoje eu não finjo, não imploro
Eu apenas, estou aqui

Escrita por: Löivar Flavio