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175 Nichts Besonderes

Gabriel O Pensador

175 Nada Especial

E aí, Pensador!
Fala, tudo bem?
Tá esperando que ônibus aí? (175!)
Ih, corre que tá saindo um ali agora
Falou então, valeu!
Valeu!

Mais um dia, mais um ônibus que eu peguei no Rio
Um ônibus tranquilo, estava vazio
A cidade engarrafada como não podia deixar de ser
Viagem demorada, o que fazer?
Sem nenhuma mulher por perto pra bater um papo esperto
Resolvi escrever um rap a mais, mas não estou bem certo
Sobre o quê vou rimar?
Diz aí, trocador!
(Ah, sei lá, porra!)
Então eu vou no instinto, pego um papel e vamo ver o quê que dá
Foi nesse instante em que eu olhei pra janela
E que susto eu levei, era ela
A inflação, estampada na vitrine
Atingiu meu coração e deu vontade de partir pro crime
Porque o que eu quero comprar já não dá mais
A não ser que eu faça como fez o Ferrabrás (Quem?)
Então eu tento esquecer, continuar a rimar
Mas o que eu vejo do outro lado é duro de acreditar
Mas é real e a realidade dói demais
São dois mendigos se matando pelos restos mortais
De um cachorro qualquer que foi atropelado
E vai virar rango e se der, talvez seja assado
(Hum, esses nojentos gostam disso?)
Não, arrombado!
Aquilo é um ser humano que chamaram de descamisado
Desesperado, um brasileiro como eu
Que deve sempre perguntar
(Será que existe mesmo Deus?)
Não é o Pensador que vai tentar responder
Eu continuo rimando, tentando esquecer

Que esse rap não é sobre nada especial
É o rap do 175 que eu peguei na central
Mas esse rap não é sobre nada especial
É o rap do 175 que eu peguei na central

E de repente, o ônibus começou a encher
Entrou mais gente, houve um tumulto
Alguém gritou e eu olhei pra ver
Quê que é isso? Quê que tá pegando? Quê que tá havendo?
(É um assalto, malandro! Será que você ainda não tá percebendo?)
O desespero do trabalhador começou
E eu também tentava esconder meu dinheiro quando alguém falou
(Libera esse aí que é o Pensador, mané!)
Mas eles eram meus fãs, então levaram meu boné
(Autografado né, Pensador, se liga!)
(Calma!)
Alguns acharam que eu era cúmplice, quase deu briga
Mas a viagem prosseguiu e os ladrões desceram
E aí a raiva que subiu na cabeça dos passageiros
E o mais injuriado era um bigodudo
Que tinha ganhado o salário (e eles levaram tudo)
Entraram dois PM's pela porta da frente, estufando o peito e olhando pra gente, impondo respeito
Mas os ladrões já tavam longe, num tinha mais jeito
Pra priorar levaram o bigodudo como suspeito, ele era preto!
(O negro segura a cabeça com a mão e chora)
Coisas desse tipo é difícil esquecer
Mas eu vou continuar porque eu já disse a você

Que esse rap não é sobre nada especial
É o rap do 175 que eu peguei na central
Mas esse rap não é sobre nada especial
É o rap do 175 que eu peguei na central

Agora estamos passando pela praia de Copacabana
Travestis e prostitutas se acabando por grana
E os gringos vão achando aquilo tudo bacana
(O Brasil é um paraíso! As mulheres são boas de cama)
Ô, gringo, não força!
Deixa de ser imbecil, você que vem lá de fora quer entender do Brasil, han
(O Brasil é um paraíso, é mole? E o inferno é onde?)
(Pera aí, Pensador!)
E por falar em paraíso, olha que loucura
Subiu no coletivo uma estranhíssima figura
Com uma bíblia na mão e uma cara de débil mental
Pregando a enganação da Igreja Universal
(Ou será que era alguma outra igreja dessas?
Ah, num faz mal! Igreja de enganar otário é tudo igual)
E o coitado foi soltando aquele papo de crente
E eu rezando, Deus, me dê paciência!
Mas o pentelho desceu pra alegria da gente
E na saída do ônibus, sofreu um acidente
Se distraiu e foi atropelado por um caminhão
Morreu esmagado com a bíblia na mão
(É, morreu? Melhor do que viver nessa ilusão, num queria Deus? Foi pro céu então)
(Num sei não)
Enquanto todos se benziam com pena do crente
Eu fui rimando, bola pra frente

Porque esse rap não é sobre nada especial
É o rap do 175 que eu peguei na central
Mas esse rap não é sobre nada especial
É o rap do 175 que eu peguei na central

E eu percebi que o trocador, ficou fazendo careta
'Prum coroa que passou, por debaixo da roleta
Era um senhor de óculos, barba branca
Ei, pera aí!
(Ei professor, o quê que o senhor tá fazendo aqui?!)
Quê que houve? Foi assaltado? Perdeu o dinheiro?
(Hum, sabe, sabe-o-quê-que-é? Gastei o salário inteiro!)
Uhum, mudei de assunto
Ele já tava encabulado
No meio do mês o salário dele já tinha acabado
Era o meu ex-professor da escola (Coitado!)
Tá fudido e mal pago, daqui a pouco tá pedindo esmola
Ele é um mestre, um baú de sabedoria
Esse num é o valor que um professor merecia
Profissional de primeira importância pro nosso futuro
Ninguém mais quer ser professor pra num viver duro
E ele desceu em outra escola pra dar mais aula
(É que eu trabalho nos três turnos, chego em casa e ainda corrijo prova)
Tchau professor (Tchau Pensador!)
Desceu mais um trabalhador que tá numa de horror

Mas esse rap não é sobre nada especial
É o rap do 175 que eu peguei na central
Mas esse rap não é sobre nada especial
É o rap do 175 que eu peguei na central

E nós agora estamos passando pelo bairro de São Conrado
E como o tempo tá fechando, eu tô ficando preocupado
Ih! Choveu! Pronto, tudo alagado
Uns vão nadando, outros morrendo afogados
E enquanto na favela tem barraco caindo
Não é que passa o prefeito num iate sorrindo?
E se o nosso ex-presidente estivesse aqui
Ele estaria certamente num belíssimo jet-ski
Mas como nós não temos embarcação pra todo mundo
Essa triste situação tá parecendo o fim do mundo
Pra quem tá de carro, pra quem tá de ônibus
Nessa Rio-Babilônia, no Brasil do abandono
E enquanto os governantes vão boiando sorridentes
Vamo remando, bola pra frente

Porque esse rap não é sobre nada especial
É o rap do 175 que eu peguei na central
Mas esse rap não é sobre nada especial
É o rap do 175 que eu peguei na central

E o pior de tudo-tudo é que nessa grande viagem
Nada-nada disso do que aconteceu foi novidade
E as autoridades estão defecando
Pro que acontece ao cidadão brasileiro no seu cotidiano
Porque pra eles isso não é nada especial
No dos outros é refresco, num faz mal
E fecham os olhos, porque até cego já viu
O revoltante retrato da vida urbana no Brasil
E eu não me refiro ao 175, ou qualquer linha da central
Eu tô falando do dia a dia, a qualquer hora, em qualquer local
Porque esse rap não é sobre nada especial

175 Nichts Besonderes

Hey, Denker!
Wie geht's, alles klar?
Wartest du auf den Bus? (175!)
Oh, beeil dich, da fährt gerade einer ab
Also, bis dann, danke!
Danke!

Ein weiterer Tag, ein weiterer Bus, den ich in Rio genommen hab
Ein ruhiger Bus, er war leer
Die Stadt im Stau, wie könnte es anders sein?
Eine lange Fahrt, was soll ich tun?
Keine Frau in der Nähe, um einen klugen Spruch zu klopfen
Hab beschlossen, einen weiteren Rap zu schreiben, aber ich bin mir nicht sicher
Worüber soll ich reimen?
Sag mal, Fahrer!
(Ah, keine Ahnung, verdammtes Zeug!)
Also gehe ich nach Gefühl, nehme ein Blatt Papier und mal sehen, was dabei herauskommt
In diesem Moment schaute ich aus dem Fenster
Und was für ein Schreck, es war sie
Die Inflation, auf dem Schaufenster abgedruckt
Hat mein Herz getroffen und ich wollte ins Verbrechen ziehen
Denn was ich kaufen will, geht nicht mehr
Es sei denn, ich mache es wie Ferrabrás (Wer?)
Also versuche ich zu vergessen, weiter zu reimen
Aber was ich auf der anderen Seite sehe, ist schwer zu glauben
Aber es ist real und die Realität tut zu weh
Zwei Obdachlose kämpfen um die Überreste
Eines beliebigen Hundes, der überfahren wurde
Und wird zu Futter, vielleicht wird er gebraten
(Hm, mögen die Ekel das?)
Nein, Arschloch!
Das ist ein Mensch, den sie als Obdachlosen bezeichnet haben
Verzweifelt, ein Brasilianer wie ich
Der sich immer fragen muss
(Gibt es wirklich Gott?)
Es ist nicht der Denker, der versuchen wird zu antworten
Ich mache weiter mit dem Reimen, versuche zu vergessen

Dass dieser Rap nichts Besonderes ist
Es ist der Rap vom 175, den ich in der Zentrale genommen habe
Aber dieser Rap ist nichts Besonderes
Es ist der Rap vom 175, den ich in der Zentrale genommen habe

Und plötzlich begann der Bus sich zu füllen
Es kamen mehr Leute, es gab Tumult
Jemand schrie und ich schaute nach
Was ist das? Was ist los? Was passiert hier?
(Es ist ein Überfall, Kumpel! Hast du das noch nicht gemerkt?)
Die Verzweiflung der Arbeiter begann
Und ich versuchte auch, mein Geld zu verstecken, als jemand sagte
(Lass den da, das ist der Denker, Mann!)
Aber sie waren meine Fans, also nahmen sie meine Mütze
(Autogramm, oder? Denker, pass auf!)
(Entspann dich!)
Einige dachten, ich sei Komplize, es gab fast einen Streit
Aber die Fahrt ging weiter und die Diebe stiegen aus
Und dann die Wut, die in den Köpfen der Passagiere aufstieg
Und der am meisten verärgerte war ein Schnurrbartträger
Der seinen Lohn bekommen hatte (und sie haben alles mitgenommen)
Zwei Polizisten kamen durch die Vordertür, Brust raus und schauten uns an, Respekt einflößend
Aber die Diebe waren schon weit weg, da gab es kein Zurück mehr
Um Prioritäten zu setzen, nahmen sie den Schnurrbartträger als Verdächtigen, er war schwarz!
(Der Schwarze hält sich den Kopf mit der Hand und weint)
Solche Dinge sind schwer zu vergessen
Aber ich mache weiter, denn ich habe dir schon gesagt

Dass dieser Rap nichts Besonderes ist
Es ist der Rap vom 175, den ich in der Zentrale genommen habe
Aber dieser Rap ist nichts Besonderes
Es ist der Rap vom 175, den ich in der Zentrale genommen habe

Jetzt fahren wir an der Copacabana vorbei
Transvestiten und Prostituierte, die um Geld kämpfen
Und die Ausländer finden das alles toll
(Brasilien ist ein Paradies! Die Frauen sind gut im Bett)
Hey, Ausländer, übertreib nicht!
Hör auf, ein Idiot zu sein, du, der von draußen kommt, willst Brasilien verstehen, hm?
(Brasilien ist ein Paradies, ist das einfach? Und die Hölle ist wo?)
(Warte mal, Denker!)
Und wo wir gerade von Paradies sprechen, schau dir diesen Wahnsinn an
Eine seltsame Gestalt stieg in den Bus
Mit einer Bibel in der Hand und einem Gesicht wie ein Schwachkopf
Predigte die Täuschung der Universalkirche
(Oder war es eine andere dieser Kirchen?
Ach, macht nichts! Eine Kirche, die Dumme betrügt, ist alles gleich)
Und der Arme begann mit dem Gerede eines Gläubigen
Und ich betete, Gott, gib mir Geduld!
Aber der Nervige stieg aus, zur Freude von uns
Und beim Aussteigen des Busses hatte er einen Unfall
Er war abgelenkt und wurde von einem Lastwagen überfahren
Starb zerquetscht mit der Bibel in der Hand
(Ja, gestorben? Besser als in dieser Illusion zu leben, wollte Gott das nicht? Ist dann in den Himmel gegangen)
(Weiß nicht)
Während alle sich bekreuzigten und Mitleid mit dem Gläubigen hatten
Reimte ich weiter, Ball nach vorne

Denn dieser Rap ist nichts Besonderes
Es ist der Rap vom 175, den ich in der Zentrale genommen habe
Aber dieser Rap ist nichts Besonderes
Es ist der Rap vom 175, den ich in der Zentrale genommen habe

Und ich bemerkte, dass der Fahrer Grimassen schnitt
Für einen älteren Herrn, der unter der Drehkreuz hindurchging
Es war ein älterer Mann mit Brille, weißem Bart
Hey, warte mal!
(Hey Professor, was machen Sie hier?!)
Was ist passiert? Wurden Sie überfallen? Haben Sie Ihr Geld verloren?
(Hm, wissen Sie, wissen Sie was? Ich habe das ganze Gehalt ausgegeben!)
Uhum, ich wechselte das Thema
Er war schon verlegen
Mitte des Monats war sein Gehalt schon aufgebraucht
Es war mein ehemaliger Lehrer aus der Schule (Armer Kerl!)
Er ist pleite und schlecht bezahlt, bald wird er um Almosen bitten
Er ist ein Meister, ein Schatz an Wissen
Das ist nicht der Wert, den ein Lehrer verdient
Ein Beruf von erster Wichtigkeit für unsere Zukunft
Niemand will mehr Lehrer werden, um nicht arm zu leben
Und er stieg an einer anderen Schule aus, um mehr zu unterrichten
(Weil ich in drei Schichten arbeite, komme nach Hause und korrigiere noch Prüfungen)
Tschüss, Professor (Tschüss, Denker!)
Ein weiterer Arbeiter stieg aus, der in der Hölle steckt

Aber dieser Rap ist nichts Besonderes
Es ist der Rap vom 175, den ich in der Zentrale genommen habe
Aber dieser Rap ist nichts Besonderes
Es ist der Rap vom 175, den ich in der Zentrale genommen habe

Und jetzt fahren wir durch den Stadtteil São Conrado
Und da das Wetter schlechter wird, mache ich mir Sorgen
Oh! Es hat geregnet! Alles überflutet
Einige schwimmen, andere ertrinken
Und während in der Favela die Hütten einstürzen
Fährt der Bürgermeister in einem Yacht lächelnd vorbei?
Und wenn unser Ex-Präsident hier wäre
Wäre er sicherlich auf einem wunderschönen Jet-Ski
Aber da wir kein Boot für alle haben
Scheint diese traurige Situation das Ende der Welt zu sein
Für die, die im Auto sind, für die, die im Bus sind
In diesem Rio-Babylon, im Brasilien des Verfalls
Und während die Regierenden lächelnd herumtreiben
Paddeln wir weiter, Ball nach vorne

Denn dieser Rap ist nichts Besonderes
Es ist der Rap vom 175, den ich in der Zentrale genommen habe
Aber dieser Rap ist nichts Besonderes
Es ist der Rap vom 175, den ich in der Zentrale genommen habe

Und das Schlimmste von allem ist, dass auf dieser großen Reise
Nichts von dem, was passiert ist, neu war
Und die Behörden scheißen drauf
Was dem brasilianischen Bürger im Alltag passiert
Denn für sie ist das nichts Besonderes
Bei anderen ist es Erfrischung, macht nichts
Und sie schließen die Augen, denn selbst Blinde haben es gesehen
Das empörende Bild des urbanen Lebens in Brasilien
Und ich spreche nicht vom 175 oder irgendeiner Linie der Zentrale
Ich spreche vom Alltag, jederzeit, überall
Denn dieser Rap ist nichts Besonderes.

Escrita por: Gabriel o Pensador