Lá no fim da estrada de chão
Tem uma casinha de janela azul
Um terreiro cheio de confusão
E um Zé que trabalha quando dá na telha, viu
Tem porco fazendo festa no chiqueiro
A Mimosa berrando no curral
E o Mimoso boi de olhar maneiro
Achando que é dono do quintal
Tem galinha maluca atravessando a rua
Como se a cidade fosse delas
E o cachorro dormindo na sombra
Guardando a casa de olhos fechados na janela
Mas quando o Sol esquenta o chapéu
E o almoço começa a perfumar
Zé já procura um pedaço de sombra
E a velha rede começa a balançar
Ele pega o banjo, ajeita o chapéu
E diz que hoje não vai fazer nada
Mas mal começa a primeira moda
E vem aquela voz de dentro da casa
Ô Zé
Que foi, muié?
Ô Zé
Tô aqui, ué
Ô Zé, larga essa rede e vem me ajudar
Só mais uma moda antes de levantar
Ô Zé
Já vou, mulher
Ô Zé
Calma, eu vou
Não é preguiça, é economia de movimento
Se descanso fosse profissão
Eu já tava aposentado faz tempo
De manhã cedo começa a lida
Café passado e pão de milho
Zé vai tratar dos porcos na corrida
Mas volta antes de sujar o chinelo
Mimosa quer capim, Mimoso quer carinho
As galinhas querem mandar no terreiro
E Zé vai seguindo pelo caminho
Conversando com o galo violeiro
Quando chega a tarde ele anuncia
Hoje eu vou nadar no rio
A família inteira pega as toalhas
E ninguém sabe quem teve mais juízo
No rio a criançada faz algazarra
A água leva embora o calor
Zé pula de roupa, perde a sandália
E diz que aquilo foi mergulho de amor
Depois do banho no fim do dia
A Lua aparece devagar
Zé olha pra rede, respira fundo
E já começa a se preparar
Ô Zé
Que foi, muié?
Ô Zé
Tô aqui, ué
Ô Zé, larga essa rede e vem me ajudar
Só mais uma moda antes de levantar
Ô Zé
Já vou, mulher
Ô Zé
Calma, eu vou
Não é preguiça, é economia de movimento
Se descanso fosse profissão
Eu já tava aposentado faz tempo
Domingo tem roupa limpa
E família chegando pelo portão
Tem tio contando a mesma história
E primo disputando o último pedaço de pudim na mão
Tem arroz, feijão e frango assado
Farofa, salada e muita opinião
A mesa é pequena pro povo reunido
Mas sobra espaço dentro do coração
Depois do almoço ninguém tem pressa
A praça é a sala da cidade
Onde notícia nova envelhece antes do almoço
E todo mundo conhece a novidade
Zé leva o banjo debaixo do braço
Diz que vai tocar só uma canção
Quando percebe a praça tá cheia
E já tem gente dançando no chão
Porque a vida na roça corre sem pressa
O relógio quem manda é o Sol que clareia
Trabalho tem muito, mas prosa não falta
E a felicidade é a Lua cheia
Se a muié grita, o peito balança
Mas no fundo a gente sabe o que é
É amor temperado com terra e poeira
Diz aí, minha muié
Ô Zé
Que foi, muié?
Ô Zé
Fala de uma vez
Larga essa rede e vem pra praça tocar
Agora eu vou que hoje eu quero é prosear
Ô Zé
Já vou, mulher
Ô Zé
Agora eu vou
Porque a vida no interior é desse jeito
A gente trabalha, reclama e ri do que passou
Ô Zé
Que foi, muié?
Amanhã tem porco, vaca e galinha pra tratar
Então deixa eu descansar hoje
Que amanhã eu penso se vou levantar
Zé deita na rede
Banjo descansando no pé
Fecha os olhos sorrindo
E pensa que agora ninguém vai chamar
Silêncio
Ô Zé
Eu sabia
Vai fechar a porteira
Mas eu acabei de deitar, muié