Eu morri trabalhando
Para salvar alguém que já não tava aqui
Se a ciência falhou uma vez, então dessa vez eu virei a própria cura
Kanji e Kutani, laboratório vazio
Noites virando dias, coração frio
Perdi minha irmã para doença sem nome
Desde então só conheço o trabalho e fome
Karoshi me levou, caí no chão morrendo cansado
Cheio de não
Quando acordei, não era o fim
Outro corpo, outro mundo, outro em mim
Yeah!
10 anos de idade, nome diferente
Farma de Médicis, sangue da corte presente
Cicatriz de raio gravada no braço não foi acidente, foi transição
O Farma morreu quando o céu caiu
E a minha alma entrou quando o corpo abriu
Quando Deus me olhou e não pediu permissão
Não tenho sombra quando uso o poder
Não é milagre, é saber
Se esse mundo vive de fé cega
Eu sou a ciência que não quer morrer
Não tenho sombra, não sou igual
Eu sou humano, tanto faz no final
Se a doença veio cobrar seu tributo
Eu sou eu que mato o luto
Olho brilha azul quando eu olho a dor
Vejo molécula, vejo o terror
Estrutura química dançando no ar
O que mata eu posso apagar
Crio água do nada, desfaço matéria
Ele me viu, caiu em histeria
Isso não é humano, isso é blasfêmia
Eu vi medo puro na cara da ciência
Sem sombra no chão quando ativo a visão
Sinal divino gravado no braço
Ela tremeu, depois entendeu
Que eu não vim destruir, vim corrigir, deu
Meu pai rezava para a magia antiga
Eu via a bactéria que ninguém explica
Imperatriz morrendo, peste branca no pulmão
Tuberculose escrevendo sentença no caixão
Invadi o quarto, quebrei tradição
Olho divino lendo a infecção
Micobactéria no escarro real
Não é castigo, é algo microscópico e fatal
Eles chamaram de veneno, de heresia
Então eu tomei primeiro na frente da monarquia
Isoniazida na veia do verso
E rifampicina atingindo o universo
Pirazinamida e etambutol
A peste branca derreteu no som
Não tenho sombra quando uso o poder
Não é milagre, é saber
Se esse mundo vive de fé cega
Eu sou a ciência que não quer morrer
Não tenho sombra, não sou igual
Eu sou humano, tanto faz no final
Se a morte bateu no portão do dono
Eu fui o erro no plano do abandono
Respeito do pai, verba na mão
Não quero luxo, quero revolução
Farmácia aberta para a plebe também
Remédio não é só para quem tem
Elen do meu lado, guarda fiel
Lotte sorrindo, doce pincel
Sempre contando cada tostão
Para a ciência não morrer na gestão
Cosmético paga antibiótico
Doce para criança tomar o caótico
Ensino higiene, fecho ferida
Mudando o mundo na rotina da vida
Salomon veio com a cruz e a acusação
Heresia escrita no braço
Olhou pro chão, não viu projeção
Sem sombra, silêncio, confirmação
Deus da medicina, eles disseram
Eu pedi segredo, não quero império
Não sou ídolo, não sou altar
Sou farmacêutico tentando equilibrar
Cidade morrendo em poucos dias
Peste negra correndo pelas vias
Não era castigo, era bioterror
Camus de Sade espalhando o horror
Esquilos infectados, plano insano
Ex-farmacêutico virando um tirano
Quarentena fechando cada rua
Eu trabalhando até a alma ficar no ar
Quase repeti a morte do passado
Mas dessa vez não tava isolado
Meus amigos seguraram a pressão
Para eu não virar mais um corpo no chão
Camus lançou veneno como magia
Eu apaguei patógeno com alquimia
Eliminação rasgando o ar
Barreira sanitária divina no lugar
Não foi ódio, foi decisão
Não salvar é outra forma de execução
A peste caiu, a cidade respirou
A ciência venceu onde o medo falhou
Não sou Deus
Não sou mais um
Não sou Deus
Não sou mais um
Sou um farmacêutico
Que se recusou a perder mais alguém
Sem sombra
Mas com propósito