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Circuladô de Fulô

Izabel Padovani

Circuladô de Fulô

Circuladô de fulô ao deus ao demodará que deus te guie
Porque eu não posso guiá eviva quem já me deu
Circuladô de fulô e ainda quem falta me dá

Soando como um shamisen e feito apenas com um arame
Tenso um cabo e uma lata velha num fim de festafeira no
Pino do sol a pino mas para outros não existia aquela música
Não podia porque não podia popular aquela música se não
Canta não é popular se não afina não tintina não tarantina
E no entanto puxada na tripa da miséria na tripa tensa da mais
Megera miséria física e doendo doendo como um prego
Na palma da mão um ferrugem prego cego na palma
Espalma da mão coração exposto como um nervo
Tenso retenso um renegro prego cego durando
Na palma polpa da mão ao sol

Circuladô de fulô ao deus ao demodará que deus te guie
Porque eu não posso guiá eviva quem já me deu
Circuladô de fulô e ainda quem falta me dá

O povo é o inventalínguas na malícia da maestria
No matreiro da maravilha no visgo do improviso
Tenteando a travessia azeitava o eixo do sol

Circuladô de fulô ao deus ao demodará que deus te guie
Porque eu não posso guiá eviva quem já me deu
Circuladô de fulô e ainda quem falta me dá

E não peça que eu te guie não peça despeça que eu te guie
Desguie que eu te peça promessa que eu te fie me deixe
Me esqueça me largue me desamargue que no fim eu acerto
Que no fim eu reverto que no fim eu conserto e para o fim me
Reservo e se verá que estou certo e se verá que tem jeito
E se verá que está feito que pelo torto fiz direito que quem faz
Cesto faz cento se não guio não lamento pois o mestre que
Me ensinou já não dá ensinamento

Circuladô de fulô ao deus ao demodará que deus te guie
Porque eu não posso guiá eviva quem já me deu
Circuladô de fulô e ainda quem falta me dá

Circuladô de Fulô

Circulador de flores a Dios al demonio dará que Dios te guíe
Porque yo no puedo guiar, viva quien ya me dio
Circulador de flores y aún quien falta me da

Sonando como un shamisen y hecho solo con un alambre
Tensando un cable y una lata vieja en un fin de feria en el
Pináculo del sol a pino pero para otros no existía esa música
No podía porque no podía popular esa música si no
Canta no es popular, si no afinas no tintinea no tarantinea
Y sin embargo tirada en la tripa de la miseria en la tripa tensa de la más
Malvada miseria física y doliendo, doliendo como un clavo
En la palma de la mano un clavo oxidado en la palma
Plana de la mano corazón expuesto como un nervio
Tensado retenido un renegrido clavo oxidado durando
En la palma pulpa de la mano al sol

Circulador de flores a Dios al demonio dará que Dios te guíe
Porque yo no puedo guiar, viva quien ya me dio
Circulador de flores y aún quien falta me da

El pueblo es el inventador de lenguas en la malicia de la maestría
En el astuto de la maravilla en la trampa de la improvisación
Tanteando la travesía aceitaba el eje del sol

Circulador de flores a Dios al demonio dará que Dios te guíe
Porque yo no puedo guiar, viva quien ya me dio
Circulador de flores y aún quien falta me da

Y no pidas que te guíe, no pidas despídete que te guíe
Desguíate que te pida, promesa que te fíe, déjame
Olvídame, suéltame, desamárgame que al final acierto
Que al final revierto, que al final arreglo y para el final me
Reservo y se verá que tengo razón y se verá que tiene arreglo
Y se verá que está hecho que por el camino equivocado hice lo correcto que quien hace
Cesto hace ciento si no guío no lamento pues el maestro que
Me enseñó ya no da enseñanza

Circulador de flores a Dios al demonio dará que Dios te guíe
Porque yo no puedo guiar, viva quien ya me dio
Circulador de flores y aún quien falta me da

Escrita por: Caetano Veloso / Haroldo De Campos