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Invierno

José Miguel Wisnik

Inverno

A minha casa é uma caixa
De papelão ao relento
Brasa dormindo contra o vento
Semente plantada no cimento
Criança na calçada

A minha casa é geladeira-televisão
Sem nada dentro
Fogo que se alimenta do seu próprio alimento
Corpo com corpo dando alento
Pra campanha do agasalho

O meu cenário é a fria luz da madrugada
Dando espetáculo por nada
Calçada da infâmia iluminada
Pela eletro paulo

A minha casa é a maloca rasgada no futuro
É o inverno o eterno enquanto duro
Osso duro, osso duro
Que ninguém há de ruir

A minha casa é o céu e o chão caroço bruto
Catado no vão do viaduto
Dando pro Anhangabaú
Da felicidade

Ah Anhangá-anhangabaú
Ah Anhangá-anhangabaú
Ah Anhangá-anhangabaú
Da felicidade

Invierno

Mi casa es una caja
De cartón a la intemperie
Brasa durmiendo contra el viento
Semilla plantada en el cemento
Niño en la vereda

Mi casa es nevera-televisión
Sin nada adentro
Fuego que se alimenta de su propio alimento
Cuerpo con cuerpo dando aliento
Para la campaña del abrigo

Mi escenario es la fría luz de la madrugada
Dando espectáculo por nada
Vereda de la infamia iluminada
Por la electro paulo

Mi casa es la choza rasgada en el futuro
Es el invierno lo eterno mientras dure
Hueso duro, hueso duro
Que nadie ha de derrumbar

Mi casa es el cielo y el suelo grano bruto
Recogido en el hueco del viaducto
Dando hacia el Anhangabaú
De la felicidad

Ah Anhangá-anhangabaú
Ah Anhangá-anhangabaú
Ah Anhangá-anhangabaú
De la felicidad

Escrita por: Zé Miguel Wisnik