Hum! Ngana nzambi! Ngana nzambi! Ngana nzambi!
Ngana nzambi hê!
Ngana nzambi que Kakinda saiu do Seles
Mas o Seles nunca saiu dele
Nasci nos Seles, Luanda me viu crescer
Educação boa, meus pais souberam me educar
Com meus irmãos brinquei, o tempo era só bondade
Éramos crianças livres, sem peso da realidade
No Lubango fiz o médio, tracei sonhos, desenhei
Primeiro emprego no BC, achei que já me encontrei
Mas a vida é quem decide, muda rumo sem avisar
No sonho do diploma tive que emigrar
Do banco eu saí, da informática larguei
Fui abraçar fábricas, o frio que enfrentei
Limpei tudo, lavei tudo, até DJ me tornei, meu Deus!
Quem olha minhas mãos não acredita
Mas olha pra minha alma, só ela sabe a vida
Ai, meu Marco Antônio, ai, minha Isabel
Se não fossem vocês, hoje eu já não era eu
Filhos juntos sofremos, mas valeu a pena, sim
Porque tudo que vivi foi pra vos ver sorrir
O Ngana Nzambi, ngana
Ngana Nzambi, segura minha mão
Que o peso da vida já me leva ao chão
Aquelas frutas que descasquei
Aqueles aquecedores que levantei
Panelas sanitas que lavei foram provas que a vida me deu
E me fizeram homem, mais forte que eu mesmo conheci
Da Inglaterra saí com o canudo de Nova Vila do Seles
O pequeno Kakinda que era Antônio
Hoje é Dr. Avalino, orgulho da mãe
Honra do pai que viu meu caminho crescer
No Kilomba fui feliz
Lembro do sorriso leve, sem dor, sem exaustão
Lembro os fins de semana quando ainda era mais pelos meus
Oh, meu Deus, há tanta coisa que já não existe
E essa saudade pesa no meu coração
Ô, Ngana Nzambi, dá-me força pra seguir
Carrego a dor do fardo, de ser adulto aqui
Me ajudem também, que eu sou humano assim
Preciso de vocês, como precisam de mim
Não dá pra viver sozinho nesta estrada
Mas o semba cura, o semba sara
E a minha história hoje ganha voz
No batuque que a alma abraça