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Retrato Cantado

Márcio Proença

Retrato Cantado

Quem me vê sentado
atrás dessa mesa de escriturário,
não vê o tarado, o louco, o sanguinário,
o bárbaro sem véu,
o estripador cruel.
Não me vê no convés
de um veleiro de três mastros
me guiando pelos astros
a caminho de Bornéu

Não sabem que eu roubo
meninos na praça quando a tarde cai
e que os vespertinos já me apelidaram
de monstro assassino
do Parque Shangai...
Mas eles não sabem
que eu sou gigolô de beira de cais
que eu sou o autor do crime da mala
que eu larguei o trapézio por beber demais...
E nem imaginam
as atrocidades que vou cometer
Não desconfiam
que a causa de tudo
é não conseguir me esquecer de você
Eu não consegui
me esquecer de você...

Retrato Cantado

Quien me ve sentado
atrás de este escritorio,
no ve al pervertido, al loco, al sanguinario,
al bárbaro sin velo,
al cruel destripador.
No me ven en la cubierta
de un velero de tres mástiles
guiándome por las estrellas
rumbo a Borneo.

No saben que robo
niños en la plaza cuando cae la tarde
y que los vespertinos ya me han apodado
el monstruo asesino
del Parque Shangai...
Pero ellos no saben
que soy gigoló de muelle,
que soy el autor del crimen de la maleta
que dejé el trapecio por beber demasiado...
Y ni imaginan
las atrocidades que voy a cometer,
no sospechan
que la causa de todo
es no poder olvidarte.
No he logrado
olvidarte...

Escrita por: Aldir Blanc