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Ciudadano

Marco Brasil

Cidadão

Tá vendo aquele edifício, moço?
Ajudei a levantar
Foi um tempo de aflição, era quatro condução
Duas pra ir, duas pra voltar
Hoje, depois dele pronto
Olho pra cima e fico tonto
Mas me vem um cidadão
Que me diz desconfiado:
Cê tá ai admirado, ou tá querendo roubar?
Meu domingo está perdido
Vou pra casa entristecido
Dá vontade de beber
E pra aumentar meu tédio
Eu nem posso olhar pro prédio
Que eu ajudei a fazer

Tá vendo aquele colégio, moço?
Eu também trabalhei lá
Lá eu quase me arrebento
Fiz a massa, pus cimento
Ajudei a rebocar
Minha filha inocente
Veio pra mim toda contente:
Pai, vou me matricular
Mas me diz um cidadão:
Criança de pé no chão aqui não pode estudar
Essa dor doeu mais forte
Nem sei porque deixei o norte
Então me pus a dizer
Lá a seca castigava
mas o pouco que eu plantava
tinha direito a colher

Tá vendo aquela igreja, moço?
Onde o padre diz amém
Pus o sino e o badalo
Enchi minha mão de calo
Lá eu trabalhei também
Mas ali valeu a pena
Tem quermesse, tem novena
E o padre me deixa entrar
Foi lá que cristo me disse:
Rapaz, deixe de tolice
não se deixe amedrontar
fui eu quem criou a terra
enchi os rios e fiz as serras
não deixei nada faltar
hoje o homem criou asas
E na maioria das casas
Eu também não posso entrar

Ciudadano

¿Ves ese edificio, joven?
Ayudé a construirlo
Fue un tiempo de aflicción, eran cuatro viajes
Dos para ir, dos para volver
Hoy, después de estar listo
Miro hacia arriba y me mareo
Pero viene un ciudadano
Que me dice desconfiado:
¿Estás ahí admirado, o quieres robar?
Mi domingo está perdido
Voy a casa entristecido
Me dan ganas de beber
Y para aumentar mi aburrimiento
Ni siquiera puedo mirar el edificio
Que ayudé a construir

¿Ves esa escuela, joven?
También trabajé allí
Casi me rompo allí
Hice la mezcla, puse cemento
Ayudé a enlucir
Mi inocente hija
Vino a mí muy contenta:
Papá, me voy a inscribir
Pero un ciudadano me dice:
Un niño descalzo aquí no puede estudiar
Este dolor dolió más fuerte
No sé por qué dejé el norte
Entonces empecé a decir
Allí la sequía castigaba
pero lo poco que sembraba
tenía derecho a cosechar

¿Ves esa iglesia, joven?
Donde el padre dice amén
Puse la campana y el badajo
Me llené la mano de callos
También trabajé allí
Pero valió la pena
Hay ferias, hay novenas
Y el padre me deja entrar
Fue allí donde Cristo me dijo:
Muchacho, deja de tonterías
no te dejes intimidar
fui yo quien creó la tierra
llené los ríos y hice las montañas
no dejé que faltara nada
hoy el hombre ha creado alas
Y en la mayoría de las casas
Yo tampoco puedo entrar

Escrita por: Lucio Barbosa