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Realeza

Maria Bethânia

Alteza

Quando meu homem foi embora
Soprou aos quatro ventos um recado
Que meu trono era manchado
E meu reino esfiapado
Sou uma rainha que voluntariamente
Abdiquei cetro e coroa
E que me entrego e me dou
Inteiramente ao que sou
A vida nômade que no meu sangue ecoa
Abro a porta do carro fissurada
Toma-me ao mundo cigano e sou puxada
Por um torvelinho

Abraça a todos os lugares
Chamam por mim os bares poeirentos
E eu espreito da calçada
Se meu amor bebe por lá
Como me atraem os colares de luzes
À beira do caminho
Errante, pego o volante
E faço nele o meu ninho
Pistas de meu homem aqui e ali rastreio
Parto pra súbitas, inéditas, paisagens
Acendo alto o meu farol de milha
Em cada uma das cidades por que passo
Seu nome escuto na trilha

Aldeia da Ajuda, Viçosa
Porto Seguro, Guarapari, Prado
Itagi, Belmonte, Prado
Jequié, Trancoso, Prado
Meu homem no meu coração
Eu carrego com todo cuidado
Partiu sem me deixar nem caixa-postal, direção
Chego a um lugar e ele já levantou a tenda
Meu Deus! Será que eu caí num laço
Caí numa armadilha, uma cilada
E que este amor que toda me espraiou
Não passou de uma lenda

Pois quando chego num lugar
Dali ele já levantou a tenda
A tenda, a tenda, a tenda, a tenda

Realeza

Cuando mi hombre se fue
Envío un mensaje a los cuatro vientos
Diciendo que mi trono estaba manchado
Y mi reino deshilachado
Soy una reina que voluntariamente
Abdicó del cetro y la corona
Y me entrego por completo
A lo que soy
La vida nómada que resuena en mi sangre
Abro la puerta del auto agrietada
Llévame al mundo gitano y soy arrastrada
Por un torbellino

Abrazo todos los lugares
Los bares polvorientos me llaman
Y acecho desde la acera
Si mi amor bebe allí
Cómo me atraen las luces de colores
Al borde del camino
Errante, tomo el volante
Y hago de él mi nido
Rastreo pistas de mi hombre aquí y allá
Parto hacia paisajes repentinos e inéditos
Enciendo alto mi faro auxiliar
En cada una de las ciudades por las que paso
Escucho su nombre en el camino

Aldea de la Ajuda, Viçosa
Porto Seguro, Guarapari, Prado
Itagi, Belmonte, Prado
Jequié, Trancoso, Prado
Mi hombre en mi corazón
Lo llevo con mucho cuidado
Se fue sin dejarme ni una dirección
Llego a un lugar y él ya ha levantado la tienda
¡Dios mío! ¿Será que caí en una trampa?
¿Caí en una trampa, una emboscada?
Y este amor que me envolvió por completo
¿Fue solo una leyenda?

Porque cuando llego a un lugar
Él ya ha levantado la tienda
La tienda, la tienda, la tienda, la tienda

Escrita por: Caetano Veloso / Wally Salomão