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João y el Perro

Moacyr Franco

João e o Cão

Eu conheci o velho João, coveiro de profissão
Lá pras bandas de Goiás
Tinha mais de oitenta ano um sorriso anunciando
confiança, amor e paz.

Conversava muito pouco
Tinha fama de ser louco
Nunca deu seu endereço

Detestava despedida
Dizia que Deus dá vida
Mas garante só o começo

Dizia que Deus chorava
Cada vez que o homem erra
E a terra não é da gente
Que a gente é que pertence à terra

João coveiro há muito tempo
Domador de chuva e vento
Ia só pelas estradas

João poeta e vagabundo
Passo a passo volta ao mundo
Carrega a sua enxada

Quanta cova ele fazia
Na beira da rodovia
Por dever ou compaixão

Mesmo se passava fome
Jamais enterrou um homem
João só sepultava cão

Quantas moedas frias
Um homem leva em seu caixão
Quantos amores cabem
No cofre do seu coração.

Numa noite João arrisca atravessar a pista
Contra-mão pra socorrer
Um cachorro atropelado que agoniza abandonado
Pouco antes de morrer

Mas sem terminar a missão
João se arrasta pelo chão
Tanto grito tanta luz

João acorda de mansinho
Ele agora é um passarinho
Sobre o ombro de Jesus

Quantas moedas frias
Um homem leva em seu caixão
Quantos amores cabem
No cofre do seu coração

João y el Perro

Conocí al viejo João, sepulturero de profesión
Por los lados de Goiás
Tenía más de ochenta años, una sonrisa anunciando
confianza, amor y paz.

Hablaba muy poco
Tenía fama de ser loco
Nunca dio su dirección

Detestaba las despedidas
Decía que Dios da vida
Pero solo garantiza el comienzo

Decía que Dios lloraba
Cada vez que el hombre erraba
Y que la tierra no es de la gente
Sino que la gente pertenece a la tierra

João sepulturero desde hace mucho tiempo
Domador de lluvia y viento
Iba solo por las carreteras

João poeta y vagabundo
Paso a paso vuelve al mundo
Cargando su azada

Cuántas tumbas cavaba
En el borde de la carretera
Por deber o compasión

Aunque pasara hambre
Nunca enterró a un hombre
João solo sepultaba perros

Cuántas monedas frías
Lleva un hombre en su ataúd
Cuántos amores caben
En la caja fuerte de su corazón.

Una noche João se arriesga a cruzar la pista
En contra mano para socorrer
A un perro atropellado que agoniza abandonado
Poco antes de morir

Pero sin terminar la misión
João se arrastra por el suelo
Tantos gritos, tanta luz

João despierta suavemente
Ahora es un pajarito
Sobre el hombro de Jesús

Cuántas monedas frías
Lleva un hombre en su ataúd
Cuántos amores caben
En la caja fuerte de su corazón

Escrita por: Moacyr Franco