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Baio Encerado

Nelson Cardoso

Baio Encerado

Quem já teve um pingo baio
Sabe o que é estar a cavalo
Eu tive um certa vez
Por isto sei do que falo
Um flete baio encerado
Que me deram de regalo

Por muito tempo parceiros
Bebemos da mesma fonte
Quando ainda havia tropas
Muitos dias de reponte
Cruzando vãos e caminhos
Desfazendo os horizontes

Pelas picadas escuras
Trocando orelhas, arisco
Meu baio – gato do mato
Corpo leviano, um prisco
Era um irmão do silêncio
Ou a chispa de um curisco

Que tempo, aquele, meu baio
Das gaúchas comitivas
A peonada da fronteira
Ando de mão pros birivas
Conhecendo os quatro cantos
Da nossa pampa nativa

Só ajeitava os arreios
Pra cruzar no Quaraí
Nadava até de cangalha
Como outro igual, nunca vi
Mal comparando: Um capincho
Cruzado com surubi

Nas estradas e realengas
Dos corredores gerais
Meu baio – lua encardida
Muito chão deixou pra trás
Ou pelos quartos de ronda
Que, hoje, nem existem mais

Das histórias que deixamos
Muitas contei ao meu filho
Quando a saudade gaviona
Pega em armas no sarilho
Dois irmãos de reencontram
Unidos pelo lombilho

Baio Encerado

Quien ha tenido un caballo bayo
Sabe lo que es estar a caballo
Yo tuve uno una vez
Por eso sé de lo que hablo
Un bayo encerado
Que me regalaron

Por mucho tiempo compañeros
Bebimos de la misma fuente
Cuando aún había tropas
Muchos días de repunte
Cruzando vacíos y caminos
Desdibujando los horizontes

Por los senderos oscuros
Cambiando orejas, arisco
Mi bayo – gato montés
Cuerpo ligero, un relincho
Era un hermano del silencio
O la chispa de un chispazo

Qué tiempo aquel, mi bayo
De las gauchas comitivas
La peonada de la frontera
Andando de mano para los birivas
Conociendo los cuatro rincones
De nuestra pampa nativa

Solo ajustaba los arreos
Para cruzar en Quaraí
Nadaba hasta con la cincha
Como otro igual, nunca vi
Mal comparando: Un carpincho
Cruzado con surubí

En los caminos y llanuras
De los corredores generales
Mi bayo – luna encardida
Mucho suelo dejó atrás
O por los cuarteles de ronda
Que, hoy, ni existen más

De las historias que dejamos
Muchas conté a mi hijo
Cuando la añoranza gavilán
Coge armas en el embrollo
Dos hermanos se reencuentran
Unidos por el lomillo

Escrita por: Lauro C. Simões / Nelson Cardoso