A felicidade não espera o foco
Atravessa o sinal fechado
Entra pela contramão
Derruba o copo
Amontoa os fracassos
Na calçada
E desregula o coração
Quando chega
O relógio perde o expediente
A luz invade a ferrugem
E até o concreto
Aprende por alguns segundos
A florescer sem permissão
A felicidade tira fotografias embaçadas
Tão tremidas quanto o coração
Quando se derrama
E ama
Porque ninguém permanece inteiro
Quando a vida derruba a porta
E entra sem pedir autorização
O abraço desloca edifícios
O riso quebra vitrines
A boca abandona
O protocolo
E os olhos
Velhos funcionários do medo
Pedem demissão
Que fique torto
Que fique borrado
Que o enquadramento fracasse
Há momentos
Que só permanecem
Porque foram grandes demais
Para caber numa lente
A felicidade tira fotografias embaçadas
Faz da mão um terremoto
Da retina um clarão
Um risco
Um borrão
Do instante, um animal
Que nenhuma câmera domina
A felicidade tira fotografias embaçadas
Tão tremidas quanto o coração
Quando se derrama
E ama
Porque a alegria
Quando é verdadeira
Não aceita algemas
Não aceita moldura
Não aceita posição
Quem ama não posa
Explode
Tenho retratos perfeitos
De dias mórbidos
E imagens quase ilegíveis
Que ainda gritam meu nome
Num canto
Metade de um rosto
No outro
Um braço fora do quadro
Ao fundo
Alguém chega correndo
Alguém beija
Alguém ainda ignora
Que a saudade já afiava os dentes
E é ali
Na fotografia ferida
Que o tempo deixa
A sua impressão digital
Não me tragam a vida
Com dentes alinhados
Céu lavado
E horizonte domesticado
Quero o mundo
Quando ele perde a compostura
Quero o beijo
Que escapou da lente
A criança toda suja
Correndo para o colo
A mulher rindo antes do clique
O velho levantando o copo
Como quem faz um brinde
Na cara da morte
Quero a verdade
Sem tripé
Porque tudo
O que é grande
Treme
Treme a terra
Antes de romper a pedra
Treme o sino
Antes de partir o silêncio
Treme a voz
Antes do eu te amo
Treme a mão
Quando finalmente encontra
Aquilo que passou a vida procurando
A felicidade tira
Fotografias tremidas
Incendeia a moldura
Desloca a cidade
Desobedece à lente
E põe a eternidade
Um pouco fora de foco
A felicidade tira fotografias embaçadas
Tão tremidas quanto o coração
Quando se derrama
E ama
E talvez seja por isso
Que as imagens mais imperfeitas
Sejam justamente aquelas
Que a memória se recusa
A apagar
Se um dia me perguntarem
Como era a felicidade
Não procurem
Meu melhor retrato
Procurem aquele
Em que quase
Nada ficou nítido
Porque eu estava
Vivo demais
Para ficar parado