Na mão, eu trouxe a flor das madrugadas
A flor febril dos pálidos vergéis
Trazia o sangue rúbeo das romãs
E o incêndio triste dos ocasos fiéis
Era a tua cor, a mesma
A mesma
Que eu via arder nos céus do teu olhar
Quando tua alma, em cânticos submersa
Fazia a noite inteira soluçar
Abriam-se os balcões da ventania
Dormia a Lua em túnicas de gás
E eu caminhava, espectro da saudade
Levando o coração como um rapaz
Leva aos altares a primeira espada
Antes da guerra lhe rasgar a paz
Ó minha amada! Quantos cemitérios
Cabem na sombra de uma despedida?
Quantas auroras morrem silenciosas
No breve espaço de uma mão perdida?
Teu nome, outrora, era um sino de ouro
Banhando a tarde em vibrações de mel
Hoje é apenas pássaro ensanguentado
Batendo as asas pelas grades do céu
Eu te encontrei
Teu rosto era mais pálido que a névoa
Que sobe aos montes quando o inverno vem
Havia em teus cabelos a tristeza
Das catedrais que não recebem ninguém
Então calei
Porque há dores que possuem templos
Onde a palavra humana não entrou
E a própria lágrima, cansada e fria
Ajoelha-se aos pés de quem amou
Deixei a flor sobre
A madeira escura
Tu não sorriste
Mas teus dedos lentos
Tocaram suas pétalas cansadas
Como quem toca ruínas e fragmentos
Depois parti
A noite abriu as asas sobre a rua
Os lampiões tremiam de terror
E eu fui sozinho, carregando o peito
Como um navio afunda o próprio amor