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Células de Mim - Amigos do Tempo

Newton Jayme

No fim da estrada
Não haverá espelhos
Nem medalhas
Penduradas no tempo
Só uma pergunta
Atravessando o silêncio
O que fizeste com o vento
Que passou pelas tuas mãos?

Não levarei comigo
As chaves das casas que tive
Nem o peso dourado
Das coisas que não puderam me seguir

Levarei as marcas invisíveis
Dos abraços interrompidos
Os olhos que encontrei na chuva
As vozes que aprendi a ouvir

Quando a noite apagar meus atalhos
E o último relógio se calar
Talvez meu coração seja um mapa
Com muitos nomes para recordar

E se perguntarem
Você viveu?
Eu não responderei com palavras

Abrirei o peito devagar
Como quem abre uma janela antiga
E sairão pássaros de memória
Rostos feitos de luz e ferida

Porque amar foi minha passagem
Meu barco contra a correnteza
Minha riqueza foi deixar sementes
Onde a terra parecia tristeza

Não fui dono de nenhuma manhã
Apenas hóspede da aurora
Não guardei o Sol nos bolsos
Deixei que iluminasse quem chorava

Aprendi que uma lágrima escondida
Também é uma oração sem voz
Que uma mão estendida no escuro
Pode salvar dois: O outro e nós

Não quero chegar ao infinito
Com as mãos cheias de nada
Quero chegar como árvore antiga
Com ninhos, cicatrizes e estrada

Que cada nome escrito no peito
Seja uma página do amor
Que cada vida tocada
Seja uma pequena ressurreição

E quando perguntarem
Você amou?
Eu abrirei o coração lentamente

E dentro dele haverá cidades
Rios, desertos e oceanos

Haverá crianças, velhos e esquecidos
Haverá vozes chamando meu nome

E o silêncio responderá por mim

Vivi
Porque amei

No final do caminho
Não somos aquilo que acumulamos

Somos os nomes
Que o amor escreveu em nós

Escrita por: Newton Jayme