Quando a febre chegou sem trombeta
Sem cavalo, sem mapa, sem rei
Alexandre chamou seus generais
E falou como quem já não tem lei
Quando a força faltar nos meus braços
Não me escondam da última estação
Que os médicos carreguem meu corpo
Como quem leva um homem pela mão
Quero a rua escutando meus passos
Mesmo que eu já não possa andar
Quero o povo entender, em silêncio
Que até reis precisam de alguém pra levar
Que estranho esse homem tão grande
Pedindo tão pouco ao morrer
Um caminho, algumas mãos
E um pouco de tempo pra entender
O mundo coube inteiro nos mapas
Mas não coube dentro do coração
E a morte, que não sabe de impérios
Não respeita nenhuma inscrição
E as moedas que ajuntei na vida
O ouro que fez tantos se ajoelhar
Não guardem comigo na terra
Deixem tudo no chão, pelo ar
Que se espalhe por onde eu passar
Que ninguém possa vir recolher
Talvez alguém veja o brilho e descubra
O preço que existe em vencer
Eu pensei que riqueza era abrigo
Que o metal comprava o amanhã
Mas o ouro é tão frio na mão
Quando a noite não chama a manhã
Que estranho esse homem tão grande
Pedindo tão pouco ao morrer
Um caminho, algumas mãos
E um pouco de tempo pra entender
O mundo coube inteiro nos mapas
Mas não coube dentro do coração
E a morte, que não sabe de impérios
Não respeita nenhuma inscrição
E quando fecharem a tampa
Não escondam minhas mãos no lençol
Deixem-nas nuas, abertas
Para a luz, para o vento, para o sol
Que o povo pergunte ao passar
'O que foi que esse homem levou? '
E que alguém responda baixinho
'Nada, nem o que conquistou, '
Porque a mão que apontava caminhos
Que assinava destinos e leis
Vai partir como partem os homens
Sem segurar nem sequer o que fez
Deixem minhas mãos descobertas
Não por glória, nem por oração
É só para que fique evidente
O vazio depois da ambição
Talvez conquistar seja apenas
Demorar para perceber
Que a distância entre o primeiro
E o último passo é você
Talvez todo mapa termine
Onde começa o que não se vê
E o homem que quis o mundo inteiro
Descubra que o mundo não cabe em ninguém
Que estranho esse homem tão grande
Pedindo tão pouco ao morrer
Um caminho, algumas mãos
E um pouco de tempo pra entender
Se a vida nos empresta o nome
Se o tempo nos empresta a razão
No fim, somos só duas mãos abertas
Pedindo passagem à escuridão
Alexandre não levou seus cavalos
Nem seus mapas, nem seu batalhão
Deixou o mundo exatamente onde estava
E levou consigo apenas o não
O não da moeda
O não do poder
O não de uma mão
Que já não pode prender
E talvez seja essa a vitória
Que nenhum conquistador prevê
Chegar ao fim de mãos vazias
E, pela primeira vez
Não precisar ter