Uma noite, o mar
Abriu-se em temporal
E engoliu minha esperança
Sem deixar qualquer sinal
A Lua
Navalha cega
No ventre do mundo
Riscava ilusões
Num silêncio profundo
Eu vagava entre espumas
Como quem mendiga calor
Enquanto o céu pendurava lembranças
Num varal de dor
Vi retratos na água escura
Dias de vício e solidão
Cada passo, um naufrágio
Cada silêncio, sofreguidão
E havia dois rastros
Correndo pela areia
Um nascia do corpo cansado
O outro, da tua presença secreta
Mas quando o mar mordia
E a alma perdia o farol
Quando a dor incendiava intrigas
Sob o azul-lençol do Sol
Atravessei a areia
Com os Joelhos cobertos de sal
Como quem procura uma porta
No fundo do vendaval
Olhei para trás, com medo
E vi somente um risco no chão
Como águia ferida
Solitária na escuridão
Então gritei para o vento
Por que me deixaste assim?
Se juraste caminhar comigo
Até o fim?
O mar silenciou por dentro
Como templo depois da oração
E tua voz desceu sobre a noite
Mansa como luz na amplidão
Meu filho, quando viste
Somente um rastro no chão
Não eram teus pés feridos
Era Eu levando teu coração
Desde então, eu caminho
Mesmo quando o escuro desce
Porque quem já dormiu
Nos teus braços
Nunca mais cai sozinho
Reconhece teu abraço
Até no meio da noite
E ouvi, no abismo das águas
Uma Voz maior que a tormenta
Filho da terra e da lágrima
Quem te falou em abandono?
Eu caminho oculto nas tribulações
Que rasgam teus pés pela estrada
Quando o medo levantar seus mares
E a dor sepultar teus caminhos
Será minha mão, invisível e eterna
A erguer teu espírito abatido
Nenhuma noite devora
Aquele que atravessa o sofrimento
Com os olhos acesos no infinito
Pois sou Eu
Quem transforma feridas em asas
E faz da tua cruz
Uma escada de luz rumo ao céu
Ó Senhor
Foi na ausência dos meus passos
Que descobri a presença dos Teus