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Caballos Callados

Raul Seixas

Cavalos Calados

O termômetro registrou
A enfermeira confirmou
A minha morte aparente, a minha sorte
Minha camisa rasgada no peito
Escorrendo óleo diesel

O relógio alarmou
A TV anunciou
A minha morte, preta e branca
A sua sorte
E o seu durex já não cola
Já não basta o tapa-olho
Eu tenho mais um por entre as pernas cabeludas
Olhos e antenas sobresalentes

O meu pulso não pulsou
O aparelho aceitou
A minha morte aparente, a sua sorte
Minha garganta sem voz

Acordo semi-lúcido
Entre a morte e a morte
Relembrando onde perdi a minha língua atrevida
Pelas mortes, pelas vidas, pelas avenidas
Pelas Ave Marias
Cantadas em coro, no meu violão
Pelas ruas sem chão
Meu corpo tem dois mil e tantos cavalos calados

Caballos Callados

El termómetro registró
La enfermera confirmó
Mi muerte aparente, mi suerte
Mi camisa rasgada en el pecho
Escurriendo diésel

El reloj sonó
La tele anunció
Mi muerte, en blanco y negro
Tu suerte
Y tu cinta ya no pega
Ya no basta con el parche en el ojo
Tengo uno más entre las piernas peludas
Ojos y antenas sobresalientes

Mi pulso no latió
El aparato aceptó
Mi muerte aparente, tu suerte
Mi garganta sin voz

Despierto semi-lúcido
Entre la muerte y la muerte
Recordando dónde perdí mi lengua atrevida
Por las muertes, por las vidas, por las avenidas
Por las Ave Marías
Cantadas en coro, en mi guitarra
Por las calles sin suelo
Mi cuerpo tiene dos mil y tantos caballos callados

Escrita por: Raul Seixas