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Ciudadano

Sérgio Reis

Cidadão

Tá vendo aquele edifício, moço?
Ajudei a levantar
Foi um tempo de aflição
Eram quatro condução
Duas pra ir, duas pra voltar

Hoje depois dele pronto
Olho pra cima e fico tonto
Mas me vem um cidadão
E me diz desconfiado
"Tu tá aí admirado?
Ou tá querendo roubar?"

Meu domingo tá perdido
Vou pra casa entristecido
Dá vontade de beber
E pra aumentar meu tédio
Eu nem posso olhar pro prédio
Que eu ajudei a fazer

Tá vendo aquele colégio, moço?
Eu também trabalhei lá
Lá eu quase me arrebento
Fiz a massa, pus cimento
Ajudei a rebocar

Minha filha inocente
Vem pra mim toda contente
"Pai, vou me matricular"
Mas me diz um cidadão
"Criança de pé no chão
Aqui não pode estudar"

Essa dor doeu mais forte
Por que é que eu deixei o norte?
Eu me pus a me dizer
Lá a seca castigava
Mas o pouco que eu plantava
Tinha direito a comer

Tá vendo aquela igreja, moço?
Onde o padre diz amém
Pus o sino e o badalo
Enchi minha mão de calo
Lá eu trabalhei também

Lá foi que valeu a pena
Tem quermesse, tem novena
E o padre me deixa entrar
Foi lá que Cristo me disse
"Rapaz deixe de tolice
Não se deixe amedrontar
Fui eu quem criou a terra
Enchi o rio, fiz a serra
Não deixei nada faltar

Hoje o homem criou asa
E na maioria das casas
Eu também não posso entrar
Fui eu quem criou a terra
Enchi o rio, fiz a serra
Não deixei nada faltar
Hoje o homem criou asas
E na maioria das casas
Eu também não posso entrar"

Ciudadano

¿Ves ese edificio, joven?
Ayudé a construirlo
Fue un tiempo de aflicción
Eran cuatro viajes
Dos para ir, dos para volver

Hoy, después de estar listo
Miro hacia arriba y me mareo
Pero viene un ciudadano
Y me dice desconfiado
'¿Estás ahí admirando?
¿O quieres robar?'

Mi domingo está perdido
Voy a casa entristecido
Dan ganas de beber
Y para aumentar mi aburrimiento
Ni siquiera puedo mirar el edificio
Que ayudé a construir

¿Ves ese colegio, joven?
También trabajé allí
Casi me rompo allí
Hice la mezcla, puse cemento
Ayudé a enlucir

Mi inocente hija
Viene hacia mí muy contenta
'Papá, me voy a inscribir'
Pero un ciudadano me dice
'Niño descalzo
No puede estudiar aquí'

Este dolor dolió más fuerte
¿Por qué dejé el norte?
Me puse a pensar
Allí la sequía castigaba
Pero lo poco que sembraba
Tenía derecho a comer

¿Ves esa iglesia, joven?
Donde el padre dice amén
Puse la campana y el badajo
Me llené la mano de callos
También trabajé allí

Allí valió la pena
Hay ferias, hay novenas
Y el padre me deja entrar
Fue allí donde Cristo me dijo
'Joven, deja de tonterías
No te dejes intimidar
Fui yo quien creó la tierra
Llené el río, hice la montaña
No dejé nada faltar

Hoy el hombre creó alas
Y en la mayoría de las casas
Yo tampoco puedo entrar
Fui yo quien creó la tierra
Llené el río, hice la montaña
No dejé nada faltar
Hoy el hombre creó alas
Y en la mayoría de las casas
Yo tampoco puedo entrar

Escrita por: Lucio Barbosa