395px

Diario de Un Preso

Seu Jorge

Diário de Um Detento

São Paulo, dia 1º de Outubro de 1992, oito horas da manhã
Aqui estou, mais um dia
Sob o olhar sanguinário do vigia
Você não sabe como é caminhar com a cabeça na mira de uma HK
Metralhadora alemã ou de Israel
Estraçalha ladrão que nem papel
Na muralha, em pé, mais um cidadão José
Servindo o Estado, um PM bom
Passa fome, metido a Charles Bronson
Ele sabe o que eu desejo
Sabe o que eu penso
O dia tá chuvoso, o clima tá tenso

Vários tentaram fugir, eu também quero
Mas de um a cem, a minha chance é zero
Será que Deus ouviu minha oração?
Será que o juiz aceitou a apelação?
Mando um recado lá pro meu irmão
Se tiver usando droga, tá ruim na minha mão
Ele ainda tá com aquela mina
Pode crer, moleque é gente fina
Tirei um dia a menos ou um dia a mais, sei lá
Tanto faz, os dias são iguais
Acendo um cigarro, e vejo o dia passar

Mato o tempo pra ele não me matar
Homem é homem, mulher é mulher
Estuprador é diferente, né?
Toma soco toda hora, ajoelha e beija os pés
E sangra até morrer na rua 10
Cada detento uma mãe, uma crença
Cada crime uma sentença
Cada sentença um motivo, uma história de lágrima
Sangue, vidas inglórias, abandono, miséria, ódio
Sofrimento, desprezo, desilusão, ação do tempo
Misture bem essa química
Pronto, eis um novo detento

Lamentos no corredor, na cela, no pátio
Ao redor do campo, em todos os cantos
Mas eu conheço o sistema, meu irmão, hã
Aqui não tem santo
Rátátátá preciso evitar
Que um safado faça minha mãe chorar
Minha palavra de honra me protege
Pra viver no país das calças bege
Tic, tac, ainda é 9 e 40
O relógio da cadeia anda em câmera lenta

Ratatatá, mais um metrô vai passar
Com gente de bem, apressada, católica
Lendo jornal, satisfeita, hipócrita
Com raiva por dentro, a caminho do centro
Olhando pra cá, curiosos, é lógico
Não, não é não, não é o zoológico

Minha vida não tem tanto valor
Quanto seu celular, seu computador
Hoje tá difícil, não saiu o Sol
Hoje não tem visita, não tem futebol
Alguns companheiros têm a mente mais fraca
Não suportam o tédio, arruma quiaca
Graças a Deus e à Virgem Maria
Faltam só um ano, três meses e uns dias
Tem uma cela lá em cima fechada
Desde Terça-feira ninguém abre pra nada
Só o cheiro de morte e Pinho Sol
Um preso se enforcou com o lençol

Qual que foi? Quem sabe? Não conta
Ia tirar mais uns seis de ponta a ponta
Nada deixa um homem mais doente
Que o abandono dos parentes
Aí moleque, me diz, então, cê quer o quê?
A vaga tá lá esperando você
Pega todos seus artigos importado
Seu currículo no crime e limpa o rabo
A vida bandida é sem futuro
Sua cara fica branca desse lado do muro
Já ouviu falar de Lúcifer?
Que veio do Inferno com moral
Um dia no Carandiru, não, ele é só mais um
Comendo rango azedo com pneumonia
Aqui tem mano de Osasco, do Jardim D'Abril, Parelheiros
Mogi, Jardim Brasil, Bela Vista, Jardim Ângela
Heliópolis, Itapevi, Paraisópolis

Ladrão sangue bom tem moral na quebrada
Mas pro Estado é só um número, mais nada
Nove pavilhões, sete mil homens
Que custam trezentos reais por mês, cada
Na última visita, o neguinho veio aí
Trouxe umas frutas, Marlboro, Free
Ligou que um pilantra lá da área voltou
Com Kadett vermelho, placa de Salvador
Pagando de gatão, ele xinga, ele abusa
Com uma nove milímetros embaixo da blusa

Aí neguinho, vem cá, e os manos onde é que tá?
Lembra desse cururu que tentou me matar?
Aquele puta ganso, pilantra corno manso
Ficava muito doido e deixava a mina só
A mina era virgem e ainda era menor
Agora faz chupeta em troca de pó
Esses papos me incomoda
Se eu tô na rua é foda
É, o mundo roda, ele pode vir pra cá
Não, já, já, meu processo tá aí
Eu quero mudar, eu quero sair
Se eu trombo esse fulano, não tem pá, não tem pum
E eu vou ter que assinar o 121

Amanheceu com Sol, dois de Outubro
Tudo funcionando, limpeza, jumbo
De madrugada eu senti um calafrio
Não era do vento, não era do frio
Acertos de conta tem quase todo dia
Tem outra logo mais, hãn, eu sabia

Lealdade é o que todo preso tenta
Conseguir a paz, de forma violenta
Se um salafrário sacanear alguém
Leva ponto na cara igual Frankestein
Fumaça na janela, tem fogo na cela
Fudeu, foi além, se pã, tem refém
Na maioria, se deixou envolver
Por uns cinco ou seis que não têm nada a perder
Dois ladrões considerados passaram a discutir
Mas não imaginavam o que estaria por vir
Traficantes, homicidas, estelionatários
Uma maioria de moleque primário
Era a brecha que o sistema queria
Avise o IML, chegou o grande dia
Depende do sim ou não de um só homem
Que prefere ser neutro pelo telefone
Ratatatá, caviar e champanhe

Fleury foi almoçar, que se foda a minha mãe
Cachorros assassinos, gás lacrimogêneo
Quem mata mais ladrão ganha medalha de prêmio
O ser humano é descartável no Brasil
Como modess usado ou Bombril
Cadeia? Guarda o que o sistema não quis
Esconde o que a novela não diz
Ratatatá sangue jorra como água
Do ouvido, da boca e nariz
O Senhor é meu pastor
Perdoe o que seu filho fez
Morreu de bruços no Salmo 23
Sem padre, sem repórter
Sem arma, sem socorro
Vai pegar HIV na boca do cachorro
Cadáveres no poço, no pátio interno
Adolf Hitler sorri no inferno
O Robocop do governo é frio, não sente pena
Só ódio e ri como a hiena
Ratatatá, Fleury e sua gangue
Vão nadar numa piscina de sangue
Mas quem vai acreditar no meu depoimento?
Dia 3 de Outubro, diário de um detento

Diario de Un Preso

São Paulo, 1 de octubre de 1992, ocho de la mañana
Aquí estoy, un día más
Bajo la mirada sanguinaria del vigilante
No sabes lo que es caminar con la cabeza en la mira de una HK
Metralleta alemana o de Israel
Destruye al ladrón como si fuera papel
En la muralla, de pie, otro ciudadano José
Sirviendo al Estado, un buen policía
Pasa hambre, queriendo ser Charles Bronson
Él sabe lo que deseo
Sabe lo que pienso
El día está lluvioso, el clima está tenso

Varios intentaron escapar, yo también quiero
Pero de uno a cien, mi oportunidad es cero
¿Acaso Dios escuchó mi oración?
¿Acaso el juez aceptó la apelación?
Le mando un mensaje a mi hermano
Si está usando droga, está mal en mi mano
Él sigue con esa chica
Créeme, el chico es buena onda
Saqué un día menos o un día más, no sé
Da igual, los días son iguales
Enciendo un cigarro y veo pasar el día

Mato el tiempo para que él no me mate
Hombre es hombre, mujer es mujer
El violador es diferente, ¿no?
Recibe golpes todo el tiempo, se arrodilla y besa los pies
Y sangra hasta morir en la calle 10
Cada preso tiene una madre, una creencia
Cada crimen una sentencia
Cada sentencia un motivo, una historia de lágrimas
Sangre, vidas sin gloria, abandono, miseria, odio
Sufrimiento, desprecio, desilusión, acción del tiempo
Mezcla bien esta química
Listo, aquí tienes un nuevo preso

Lamentos en el pasillo, en la celda, en el patio
Alrededor del campo, en todos los rincones
Pero yo conozco el sistema, hermano, eh
Aquí no hay santos
Rátátátá, necesito evitar
Que un sinvergüenza haga llorar a mi madre
Mi palabra de honor me protege
Para vivir en el país de los pantalones beige
Tic, tac, aún son las 9:40
El reloj de la cárcel avanza en cámara lenta

Ratatatá, otro metro va a pasar
Con gente decente, apurada, católica
Leyendo el periódico, satisfecha, hipócrita
Con rabia por dentro, camino al centro
Mirando hacia acá, curiosos, es lógico
No, no, no, no es el zoológico

Mi vida no tiene tanto valor
Como tu celular, tu computadora
Hoy está difícil, no salió el sol
Hoy no hay visita, no hay fútbol
Algunos compañeros tienen la mente más débil
No soportan el aburrimiento, se arman líos
Gracias a Dios y a la Virgen María
Faltan solo un año, tres meses y unos días
Hay una celda arriba cerrada
Desde el martes nadie abre para nada
Solo el olor a muerte y Pinho Sol
Un preso se ahorcó con la sábana

¿Qué pasó? ¿Quién sabe? No cuenta
Iba a sacar unos seis de punta a punta
Nada deja a un hombre más enfermo
Que el abandono de los parientes
Ahí, chico, dime, entonces, ¿qué quieres?
La plaza está ahí esperando por ti
Toma todos tus artículos importados
Tu currículum en el crimen y límpiate el trasero
La vida de bandido no tiene futuro
Tu cara se pone blanca de este lado del muro
¿Has oído hablar de Lúcifer?
Que vino del infierno con moral
Un día en Carandiru, no, él es solo uno más
Comiendo comida en mal estado con neumonía
Aquí hay mano de Osasco, del Jardín D'Abril, Parelheiros
Mogi, Jardín Brasil, Bela Vista, Jardín Ângela
Heliópolis, Itapevi, Paraisópolis

Ladrón buena onda tiene moral en la quebrada
Pero para el Estado es solo un número, nada más
Nueve pabellones, siete mil hombres
Que cuestan trescientos reales al mes, cada uno
En la última visita, el negrito vino aquí
Trajo unas frutas, Marlboro, Free
Dijo que un sinvergüenza de la zona volvió
Con un Kadett rojo, matrícula de Salvador
Presumiendo, él insulta, él abusa
Con una nueve milímetros debajo de la blusa

Ahí, negrito, ven aquí, ¿y los chicos dónde están?
¿Recuerdas a ese cururu que intentó matarme?
Ese hijo de puta, sinvergüenza cornudo
Se ponía muy loco y dejaba a la chica sola
La chica era virgen y aún era menor
Ahora hace chupetines a cambio de polvo
Esos temas me incomodan
Si estoy en la calle es jodido
Sí, el mundo gira, puede venir aquí
No, ya, ya, mi proceso está ahí
Quiero cambiar, quiero salir
Si me encuentro con ese fulano, no hay pá, no hay pum
Y tendré que firmar el 121

Amanece con sol, 2 de octubre
Todo funcionando, limpieza, jumbo
De madrugada sentí un escalofrío
No era del viento, no era del frío
Ajustes de cuentas hay casi todos los días
Hay otro pronto, eh, lo sabía

Lealtad es lo que todo preso intenta
Conseguir la paz, de forma violenta
Si un sinvergüenza le hace una jugada a alguien
Recibe un punto en la cara igual que Frankenstein
Humo en la ventana, hay fuego en la celda
Se jodió, fue más allá, si pã, hay rehén
En su mayoría, se dejó envolver
Por unos cinco o seis que no tienen nada que perder
Dos ladrones considerados empezaron a discutir
Pero no imaginaban lo que estaba por venir
Narcotraficantes, homicidas, estafadores
Una mayoría de chicos primarios
Era la brecha que el sistema quería
Avise al IML, llegó el gran día
Depende del sí o no de un solo hombre
Que prefiere ser neutral por teléfono
Ratatatá, caviar y champán

Fleury fue a almorzar, que le jodan a mi madre
Perros asesinos, gas lacrimógeno
Quien mata más ladrones gana medalla de premio
El ser humano es desechable en Brasil
Como un modess usado o un Bombril
¿Cárcel? Guarda lo que el sistema no quiso
Esconde lo que la novela no dice
Ratatatá, sangre brota como agua
Del oído, de la boca y de la nariz
El Señor es mi pastor
Perdona lo que tu hijo hizo
Murió de bruces en el Salmo 23
Sin sacerdote, sin reportero
Sin arma, sin ayuda
Va a contraer VIH en la boca del perro
Cadáveres en el pozo, en el patio interno
Adolf Hitler sonríe en el infierno
El Robocop del gobierno es frío, no siente pena
Solo odio y ríe como la hiena
Ratatatá, Fleury y su pandilla
Van a nadar en una piscina de sangre
Pero, ¿quién va a creer en mi testimonio?
3 de octubre, diario de un preso

Escrita por: Mano Brown, Josemir Prado