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Vieja casona (parte de Neto Fagundes)

Teixeirinha Filho

Velho Casarão (part. Neto Fagundes)

Velho casarão já quase tapera
Da grande figueira sombreando o telhado
Se ela falasse contava a história
De quem te plantou há um século passado
Mas como eu sou neto de quem lhe plantou
Eu conto a história casarão amado
Nas suas paredes tem furos de bala
Das revoluções que a história fala
Serviu de trincheira a varanda e a sala
Pra seu construtor meu avó afamado

Ali meu avô doze filhos criou
Sou filho de um que empunhou a bandeira
Meu avô morreu e ficou o meu pai
Mandando na estância pela vida inteira
Meus tios foram embora pra outra querência
Ficou o casarão que foi sempre trincheira
Na frente o meu pai seu chimarrão tomava
Comigo no colo ele me embalava
Com a minha mãe os dois cantarolavam
Para mim dormir na sombra da figueira

Lá por trinta e dois houve outra revolta
As forças chegaram e foram invadindo
Meu pai minha mãe abraçados aos fuzis
Velho casarão outra vez resistindo
Lá do meu berço eu saí engatinhando
Pra ver e ouvir a bala zunindo
As forças recuaram acabou a desgraça
A figueira grande abafou a fumaça
Meu pai demonstrou ter ficado com a raça
Do meu velho avô que brigava sorrindo

Casarão querido da grande figueira
Ali fiquei moço faceiro e pachola
Meu pai me ensinou a ser bom cantador
E o primeiro acorde de uma viola
Depois veio a morte e levou os pais
Sai pelo mundo minha fama rola
Quando eu ficar velho velho casarão
Volto pra contigo tombar no chão
Da grande figueira quero meu caixão
E pra minha alma o céu por esmola

Vieja casona (parte de Neto Fagundes)

Vieja casona casi en ruinas
La gran higuera sombreando el techo
Si ella hablara, contaría la historia
De quien te plantó hace un siglo
Pero como soy nieto de quien te plantó
Yo cuento la historia, amada casona
En sus paredes hay agujeros de bala
De las revoluciones que la historia cuenta
Sirvió de trinchera el balcón y la sala
Para su constructor, mi afamado abuelo

Allí mi abuelo crió a doce hijos
Soy hijo de uno que empuñó la bandera
Mi abuelo murió y quedó mi padre
Dirigiendo la estancia toda la vida
Mis tíos se fueron a otro lugar
Quedó la casona que siempre fue trinchera
En el frente, mi padre tomaba mate
Conmigo en brazos, me arrullaba
Con mi madre, ambos canturreaban
Para que yo durmiera a la sombra de la higuera

Por el treinta y dos hubo otra revuelta
Las fuerzas llegaron e invadieron
Mi padre y mi madre abrazados a los fusiles
Vieja casona resistiendo de nuevo
Desde mi cuna salí gateando
Para ver y escuchar las balas zumbando
Las fuerzas retrocedieron, terminó la desgracia
La gran higuera ahogó el humo
Mi padre demostró haber heredado la raza
De mi viejo abuelo que peleaba sonriendo

Casona querida de la gran higuera
Allí me quedé joven, alegre y orgulloso
Mi padre me enseñó a ser buen cantor
Y el primer acorde de una guitarra
Luego vino la muerte y se llevó a mis padres
Salí al mundo y mi fama corre
Cuando sea viejo, vieja casona
Volveré para caer contigo en el suelo
De la gran higuera quiero mi ataúd
Y para mi alma, el cielo como limosna

Escrita por: Teixeirinha