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Venganza de Cunhã

Thiago Thiago de Mello

Vingança de Cunhã

Foi cunhã que me viu lá na beira
Foi cunhã a que me fez boiar
Foi cunhã na manhã derradeira
Cunhatã, a que me fez voltar

Arrepio no meião do rio
Arrebol fez rajada no ar
Ela passa, eu desconfio
Que o mundo está quase a tornar
De ponta à cabeça, desvario
À caminho de acabar

Foi cunhã, vi descer a ladeira
Foi cunhã, para a beira lavar

Desconjuro no fundo do furo
Desnorteio buscando o luar
Desgraçada aventureira
Que me veio amaldiçoar
Não troço mais graça alvissareira
Nem vou mais malinar

Foi cunhã, no alto da ribanceira
Foi cunhã, meu caminho cruzar
Foi cunhã, feito flecha certeira
Cunhatã, nunca mais vou tocar

Fez feitiço pra me dar sumiço
Arapuca pra quando eu passar
Eu pra sempre serei bicho
Não posso mais gente virar
Caminho de boto é descaminho
Nas águas do Andirá

Noite de maré cheia
De estrela a nos alumiar
Toda gente se arrodeia
Querendo engerado me olhar
Não faço nem mal a ninguém
Não tem mais quem queira me amar
Não troço mais graça alvissareira
Nem vou mais malinar

Foi cunhã, minha alma festeira
Foi cunhã, mau-olhado lançar
Foi cunhã, feito cobra rasteira
Cunhatã, quis me escurraçar

Meia-noite no breu um açoite
Lua cheia que Deus fez sumir
Serpenteia, rara noite
À modo de me redimir
Ó minha mãe-d'água milagreira
Me faça guerreiro resistir
À vingança de cunhã
Que prometo nunca procurei
Feito cego frente ao Sol
Sou peixe no seu anzol
Mas eu mesmo me pesquei
Quando dei confiança pra cunhã
Inventei um fim pra mim

Venganza de Cunhã

Fue cunhã quien me vio ahí en la orilla
Fue cunhã quien me hizo flotar
Fue cunhã en la mañana definitiva
Cunhatã, la que me hizo regresar

Escalofrío en el medio del río
El amanecer hizo ráfaga en el aire
Ella pasa, yo desconfío
Que el mundo está a punto de cambiar
De cabeza a pies, desvarío
Caminando hacia el final

Fue cunhã, vi bajar la ladera
Fue cunhã, para la orilla lavar

Desconjuro en el fondo del pozo
Desnorteo buscando la luna
Desgraciada aventurera
Que vino a maldecirme
No hago más gracia esperanzadora
Ni voy a seguir soñando

Fue cunhã, en lo alto del barranco
Fue cunhã, cruzar mi camino
Fue cunhã, como flecha certera
Cunhatã, nunca más voy a tocar

Hizo un hechizo para hacerme desaparecer
Trampa para cuando yo pase
Yo para siempre seré bestia
No puedo volver a ser humano
Caminos de delfín son caminos perdidos
En las aguas del Andirá

Noche de marea alta
De estrellas que nos iluminan
Toda la gente se arremolina
Queriendo mirarme con curiosidad
No le hago mal a nadie
No hay más quien quiera amarme
No hago más gracia esperanzadora
Ni voy a seguir soñando

Fue cunhã, mi alma festiva
Fue cunhã, mal de ojo lanzar
Fue cunhã, como serpiente sigilosa
Cunhatã, quiso despojarme

Medianoche en la oscuridad un azote
Luna llena que Dios hizo desaparecer
Serpentea, rara noche
A modo de redimirme
Oh, madre de agua milagrosa
Hazme guerrero resistir
A la venganza de cunhã
Que prometo nunca busqué
Como ciego frente al Sol
Soy pez en su anzuelo
Pero yo mismo me pesqué
Cuando le di confianza a cunhã
Inventé un final para mí

Escrita por: Thiago Thiago de Mello, Frederico Demarca