395px

A Ilha do Abismo

Tião Folk

Lá na Ilha do Abismo, onde as palmeiras tombam
E o rum é mais grosso que o sonho de um pirata
Viviam uns loucos com a cabeça na areia
Apertando seus planos numa terra já morta

Tem a Madame Maria, cartomante de boteco
Trocando profecia por um gole barato
Sussurra futuros para um ladrão caolho
Que planeja roubar seu precioso livro

Ah! Ilha do Abismo, o mar não se importa
O chão vai tremer, o céu vai dar bronca
A talagada no copo é pra loucura passar
Porque a Ilha do Abismo não sabe nadar

Tem o Pastor Tonhão, com seu riso de cobra
Grita a salvação enquanto se afoga na pinga
Benzendo as almas das gêmeas da taberna
Que roubam as moedas da caixa de oferenda

O Prefeito, um pavão de bengala dourada
Quer erguer uma estátua a sua vaidade
Suborna marujos com promessas de glória
Compra silêncio com promissória vencida

O marinheiro jurou que vai embora amanhã
É a sexta vez esse mês, ninguém finge crer
Chora mais que novela, enquanto vomita
As juras malditas do próprio clichê

Ah! Ilha do Abismo, o mar tá zombando
O chão vai cuspir e o céu vai dar bronca
A cerveja azedou, ninguém mais quer fingir
Porque a Ilha do Abismo não sabe mentir

No farol, o velho Silas Macário
Conversa com gaivotas desde o último século
Escreve um romance em cascas de coco
Sobre uma sereia vigarista e um capitão louco

O bar tá fervendo de sonhadores quebrados
Apostando em corridas que uma dama fraudou
Amante do jogador que perdeu até a alma
Enquanto o rádio avisa que o tempo se formou

De repente, o chão ruge, o mar espirra veneno
As palmeiras tremem igual mulher de prefeito
Voam as cartas marcadas como folhas ao vento
E o caolho agarra o livro, era aquele o momento

Ah! Ilha do Abismo, onde os tolos brincaram
Beijaram o caos como quem beija o altar
Erga o copo aos loucos, deixa a história rolar
Porque a Ilha do Abismo nunca soube nadar

O Pastor reza, mas já bebeu o amém
Silas escreve seu próprio réquiem
O jogador ganhou, mas agora é tarde
O prefeito posa pra foto na lápide

E eu num boteco, de uma cidade qualquer
Vendo notícia, futebol e mulher
O jornal falou que uma ilha afundou
Lembrei das minhas roupas que deixei no Sol

Paguei meu café e fui embora pra casa
A rua tá tão cheia que a gente fácil se atrasa
A Ilha do Abismo é só pó na maré
Eu murmuro um adeus enquanto sigo a pé

Ah! Ilha do Abismo, onde os tolos brincaram
Beijaram o caos como quem beija o altar
Erga o copo aos loucos, deixa a história rolar
Porque a Ilha do Abismo nunca soube nadar

Escrita por: Tião Folk