Será que no céu hão de me aceitar
Quando a chuva da morte se aproximar?
Tantas noites em claro insisti ao me perguntar
Se pertenço ao inferno, por que sigo a rezar?
Destituiu-se, inteiro, o Sol
Pelas curvas do rio
E fez-se em verso o meu olhar
Que estava tão alheio a si
Tinha no abismo o meu farol
E o tremor em minhas mãos
Se num segundo roda o mundo
Quem segue a manter-se são?
Beirando hediondo abismo
Donde chamou-me o farol mais de uma vez
Bastava um breve movimento, um singelo tropeço
Quem esteve lá a dar-me a mão?
Quisera eu poder falar
Quisera o mundo poder me ouvir
Quanto é que vale minha vida?
Quanto vale a minha dor?
É dura sina de viver sem procurar
Seria eu um homem ou uma mulher?
Ou seria um espelho dos anjos?
Teria eu direito de amar e dizer?
E se o preço a pagar for fatal?
E será que eu aceitarei este céu
Dentre tantos possíveis que não me julgarão feito réu?
Pelas curvas da vida, junto aos meus prefiro estar, pois
Entre o céu e o inferno, tenho a terra pra morar