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A Janela

Walber Costa

Dois viajantes presos no mesmo inverno
Dois corpos cansados no silêncio do hospital
Um podia tocar a luz por uma pequena hora
O outro vivia deitado, distante do quintal

Falavam dos lugares que já percorreram
Dos rostos guardados no fundo do coração
Das mesas vazias, dos filhos e das lembranças
Tentando esquecer a dor da solidão

Toda tarde, a janela se abria em palavras
E o quarto escuro ganhava novas cores
Havia um lago feito de espelhos tranquilos
Crianças navegando pequenos sonhos e amores

Patos cortavam a água como versos suaves
Casais caminhavam entre jardins em flor
Árvores erguiam seus braços antigos
Como velhos guardiões protegendo o calor

O homem distante fechava os seus olhos
E construía um mundo dentro de si
Cada frase era uma ponte sobre o abismo
Cada detalhe dizia: Ainda estamos aqui

E quando falaram de um grande desfile
Tambores surgiram em sua imaginação
Mesmo sem ouvir, ele via bandeiras
Dançando vivas dentro do coração

Mas o tempo é um rio que nunca retorna
E uma manhã chegou sem pedir permissão
A cama da janela ficou em silêncio
Como uma estrela apagando sua canção

Levaram o homem que dormia sereno
E restou apenas a imagem das recordações
Então o outro pediu aquele lugar
Para finalmente tocar suas visões

Com esforço ergueu seu corpo ferido
Buscando o jardim que aprendeu a amar
Mas além do vidro havia somente
Uma fria parede de tijolos no ar

Perguntou à enfermeira, confuso e abatido
Por que ele pintou um céu tão bonito assim?
Ela baixou os olhos e disse baixinho
Ele era cego não via nem o jardim

E talvez, mesmo carregando a própria noite
Quisesse acender uma manhã para você
Há pessoas que sangram em silêncio
Mas ainda encontram forças para estender a mão e erguer

Porque existem almas que são como janelas
Mesmo quebradas, deixam a luz passar
E quem divide o peso das próprias pedras
Faz o deserto inteiro florescer e cantar

A tristeza repartida perde metade do frio
A alegria compartilhada aprende a se multiplicar
E às vezes o maior ato de coragem
É inventar um horizonte para alguém continuar

Escrita por: Walber Costa