Não teve beijo e nem abraço o tal do Bento
Nasceu na seca, embalado pelo vento
A mãe deitou debaixo de um umbuzeiro
E o recém-nascido ficou pro mundo inteiro
Nasceu no meio da caatinga impiedosa
Num ano em que a chuva só trazia o desgosto
O sol de rachar pedra queimava numa seca assombrosa
A mãe fugindo da fome não suportou a dor
Bento chorou o seu primeiro choro só
Embalado pelo assovio do vento no sertão
Três dias enrolado num farrapo e muito pó
Bebendo o orvalho pra não morrer no chão
Foi um tropeiro que achou a criatura
Olhando pro céu pra curar a amargura
E cresceu solto, como bicho no terreiro
Sem ter escola, sem amor e sem dinheiro
Ele não tinha um amigo ou parente
Só a poeira e o sol queimando a mente
Mas quando a fome bateu forte no seu peito
Ele encontrou Firmino, o dono do direito
Que deu um prato de comida e um oitão
E disse: A partir de hoje tu manda nesse chão
Bento aceitou, não tinha o que perder
E aprendeu rápido como é que faz doer
Virou a sombra do patrão, um cão de caça
Onde passava, esvaziava logo a praça
Matou posseiro, matou quem não pagou
Matou quem a terra de Firmino cobiçou
O nome Bento virou lenda de terror
Um homem seco, sem alma e sem pudor
E o dinheiro comprava o silêncio da cidade
Onde o gatilho era a única verdade
Até que um dia, a mando do senhor
Foi lá pro norte cobrar um lavrador
A lenda de Bento crescia em cima dos caídos
A porta de madeira podre ele quebrou
A espingarda cantou, e o pobre homem tombou
Mas quando a fumaça da pólvora baixou
Um choro fino no escuro ecoou
Lá no cantinho, um menino encolhido
Olhando o corpo do seu pai abatido
E Bento olhou pros olhos da criança
E viu no espelho sua própria lembrança
A arma pesou como se fosse uma bigorna
O peito deu um nó que a alma não contorna
Ele deixou o seu revólver no chão de terra
Decidiu que ali mesmo acabava a sua guerra
Limpou as mãos na água fria do ribeirão
Pegou sua viola e sumiu na escuridão
Foi pra uma tapera, bem longe de tudo
Com duas cabras, tentando ficar mudo
Mas o tempo passa e Firmino não perdoa
Quem cospe no prato e foge da coroa
Ele não viu só o medo, ele viu foi o reflexo
Do monstro impiedoso que Firmino o fez virar
A gota de culpa desceu sem nenhum nexo
E o peso do revólver a sua mão fez afundar
Numa cidade pequena tentando se esconder
Pra enterrar o seu passado e o próprio cansaço
Mas Firmino jurou que faria a terra tremer
E a caçada começava pra cobrar o seu pedaço
O vento parou, a poeira flutuou
O jagunço cansado, a espingarda engatilhou
Explodiu fumaça, grito e desespero
O sangue quente lavou o pó do terreiro
E a cada tiro que rasgava a solidão
Um pedaço do passado caía no chão
Até que o silêncio voltou a imperar
Os três fugiram, sem poder alcançar
Subiu no cavalo sem olhar pra trás
Sabendo que o mundo não lhe traria paz
E que a vida que ele tanto quis largar
Nunca ia deixar de lhe procurar
E quem cruza o sertão de madrugada
Diz que ouve um dedilhado na estrada
De um homem que quis ser outro sem saber
Que tem vida que a gente não pode escolher
Mal sabia ele que Firmino
Marcado por um cruel destino
Jamais aceitaria aquele sumiço
Fez da vingança o seu compromisso
Iniciando a caçada que, sem temer
Faria anos depois o chão voltar a tremer