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Ciudadano

Wilson Paim

Cidadão

Tá vendo aquele edifício, moço?
Ajudei a levantar
Foi um tempo de aflição
Eram quatro condução
Duas pra ir, duas pra voltar
Hoje depois dele pronto
Olho pra cima e fico tonto
Mas me chega um cidadão
E me diz desconfiado
"-Tu tá aí admirado,
Ou tá querendo roubar?"
Meu domingo tá perdido
Vou pra casa entristecido
Dá vontade de beber
E pra aumentar o meu tédio
Eu nem posso olhar pro prédio
Que ajudei a fazer

Tá vendo aquele colégio, moço?
Eu também trabalhei lá
Lá eu quase me arrebento
Pus a massa, fiz cimento
Ajudei a rebocar
Minha filha inocente
Vem pra mim toda contente
"-Pai, vou me matricular"
Mas me diz um cidadão
"-Criança de pé no chão
Aqui não pode estudar"
Esta dor doeu mais forte
"Por que fui deixar o norte",
Eu me pus a me dizer
Lá a seca castigava
Mas o pouco que eu plantava
Tinha direito a comer

Tá vendo aquela igreja, moço,
Onde o padre diz amém?
Pus o sino e o badalo
Enchi minha mão de calo
Lá eu trabalhei também
Lá sim, valeu a pena
Tem quermesse, tem novena
E o padre me deixa entrar
Foi lá que Cristo me disse
"-Rapaz, deixe de tolice
Não se deixe amedrontar
Fui eu quem criou a Terra
Enchi os rios, fiz a serra
Não deixei nada faltar
Hoje o homem criou asas
E na maioria das casas
Eu também não posso entrar"

Ciudadano

¿Ves ese edificio, joven?
Ayudé a construirlo
Fue un tiempo de aflicción
Eran cuatro viajes
Dos para ir, dos para volver
Hoy, después de estar listo
Miro hacia arriba y me mareo
Pero se acerca un ciudadano
Y me dice desconfiado
'-¿Estás ahí admirando,
o quieres robar?'
Mi domingo está perdido
Voy a casa entristecido
Me dan ganas de beber
Y para aumentar mi aburrimiento
Ni siquiera puedo mirar el edificio
Que ayudé a construir

¿Ves esa escuela, joven?
También trabajé allí
Casi me rompo allí
Puse el mortero, hice cemento
Ayudé a enlucir
Mi inocente hija
Viene hacia mí muy contenta
'-Papá, me voy a inscribir'
Pero un ciudadano me dice
'-Niño descalzo
Aquí no puedes estudiar'
Este dolor dolió más fuerte
'¿Por qué me fui del norte?'
Me puse a pensar
Allí la sequía castigaba
Pero lo poco que sembraba
Tenía derecho a comer

¿Ves esa iglesia, joven,
donde el padre dice amén?
Puse la campana y el badajo
Me llené las manos de callos
También trabajé allí
Allí sí valió la pena
Hay ferias, hay novenas
Y el padre me deja entrar
Fue allí donde Cristo me dijo
'-Muchacho, deja de tonterías
No te dejes intimidar
Fui yo quien creó la Tierra
Llené los ríos, hice las montañas
No dejé nada faltar
Hoy el hombre ha creado alas
Y en la mayoría de las casas
Yo tampoco puedo entrar

Escrita por: Lucio Barbosa