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Mi Animal

Ana Carolina

Mon Animal

Eu a vejo quase todas as manhãs
Não é exatamente bonita
Aliás, ela é de uma feiura estranha
Como se carregasse uma boniteza espalhada em si
Nos gestos, e não nos traços exatamente
Não importa. Importa, que a vejo acompanha perenemente do seu cão
Um pastor alemão com cara de bom companheiro, e é, eu vejo

Encaixa o seu fucinho nos joelhos dela, brinca com ela, grane querendo dengo
E ela também, essa minha vizinha, brinca de não-solidão com esse cachorro específico, gosta dele, ri
Não, Duke, assim não, Duke, deixa o moço, Duke me espera
Não vai assim na minha frente, cuidado com o carro
E ele a olha como quem agradece e vão os dois, não em vão
Pelas ruas de Copacabana sobre o Sol, felizes que só vendo
Eu vejo. Ela é camelô. Nos encontramos no elevador e eu

- Vocês se divertem tanto, é tão bonito
- Éhh, nos conhecemos na rua né. Ele olhou pra mim assim bem nos meus olhos
Eu tava trabalhando, vi logo que ele era um cão bem cuidado mas faltava carinho

O elevador apertadíssimo, e ela continuou falando
- Eu tenho certeza que ele é de câncer. Mas é muito sensível, só falta falar, né Duke? Ele não é lindo?

Eu disse
- Lindíssimo. E você que signo é?
- Ah, minha filha, eu sou de capricórnio, né, janeiro né. Mas com ascendente em câncer. Combina, combina sim

Eu vejo o Duke lambendo as mãos dela, magras mãos, cujos dedos ela oferecia de propósito distraidamente à mordida dele
Eu olhei, admirando receosa, por conta dos afiados dentes porque eu quase não entendo de cão. E ela
- Você tem medo hein? Huuum. Não ofenda, o Duke entende tudo
Não gostou do que você pensou, jamais me morderia, jamais me trairia, né Duke?

Senti o pensamento de Duke latindo que jamais a trairia. Achei bonito. Chegamos
- Tchau
- Bom trabalho, tchau Duke

Fui pra rua pensando longamente nos dois
Ao final da tarde, avistei pela janela, Duke e Angela indo pelo crepúsculo na praia
Vi os dois voltando sorridentes e caninos sobre a noite estrelada
Ela com fitas de vídeo penduradas ao braço sempre conversando com ele

Eu... Tenho inveja de Angela
O animal que eu quero não mora comigo, não almoça mais comigo
Não brinca mais, não me telefona, não me adivinha o pensamento
Não me acompanha ao crepúsculo, não grane querendo dengo
Nossos signos parecem não mais combinar
O animal que eu quero pensa demais e por isso não passeia mais comigo
E o pior: Não me lambe mais!

Mi Animal

La veo casi todas las mañanas
No es exactamente bonita
De hecho, tiene una fealdad extraña
Como si llevara consigo una belleza esparcida en ella
En los gestos, y no precisamente en los rasgos
No importa. Lo importante es que la veo siempre acompañada de su perro
Un pastor alemán con cara de buen compañero, y lo es, yo veo

Hunde su hocico en sus rodillas, juega con ella, buscando mimos
Y ella también, mi vecina, juega a no estar sola con ese perro en particular, le gusta, se ríe
No, Duke, así no, Duke, déjalo, Duke, espérame
No vayas así delante de mí, cuidado con el carro
Y él la mira como agradeciendo y se van los dos, no en vano
Por las calles de Copacabana bajo el Sol, felices como nadie
Yo veo. Ella es vendedora ambulante. Nos encontramos en el ascensor y yo

- Se divierten tanto, es tan bonito
- Sí, nos conocimos en la calle, ¿no? Me miró así directo a los ojos
Estaba trabajando, vi enseguida que era un perro bien cuidado pero le faltaba cariño

El ascensor apretadísimo, y ella siguió hablando
- Estoy segura de que es de cáncer. Pero es muy sensible, casi habla, ¿verdad Duke? ¿No es lindo?

Yo dije
- Precioso. ¿Y tú de qué signo eres?
- Ah, hija, soy capricornio, enero, ¿no? Pero con ascendente en cáncer. Combina, sí que combina

Veo a Duke lamiendo sus manos, manos delgadas, cuyos dedos ofrecía distraídamente a su mordida
Miré, admirando temerosa, por los afilados dientes porque casi no entiendo de perros. Y ella
- Tienes miedo, ¿eh? Hum. No te ofendas, Duke lo entiende todo
No le gustó lo que pensaste, jamás me mordería, jamás me traicionaría, ¿verdad Duke?

Sentí el pensamiento de Duke ladrando que jamás la traicionaría. Me pareció bonito. Llegamos
- Adiós
- Buen trabajo, adiós Duke

Caminé por la calle pensando largamente en los dos
Al final de la tarde, vi por la ventana a Duke y Angela yendo hacia la playa en el crepúsculo
Los vi regresar sonrientes y caninos sobre la noche estrellada
Ella con cintas de video colgadas en el brazo siempre hablando con él

Yo... Tengo envidia de Angela
El animal que quiero no vive conmigo, no almuerza conmigo
No juega, no me llama, no adivina mis pensamientos
No me acompaña al crepúsculo, no busca mimos
Nuestros signos parecen no combinar más
El animal que quiero piensa demasiado y por eso ya no pasea conmigo
Y lo peor: ¡Ya no me lame más!

Escrita por: Elisa Lucinda