Auto-retrato
Às vezes sou um, às vezes sou outro:
todo mundo é assim, ou é assado.
Eu, sem fugir à regra, transgredi.
Fui, ao mesmo tempo, eu e o outro
-um para dentro, outro para os outros
mas, confesso, sou igual a todos
num disfarce que é a outra face
de uma falsa dicotomia.
Maniqueísmos? Planger ou prazer?
Nem religioso eu sou, nem romântico,
muito menos ideólogo ou assumido
de qualquer coisa, na minha infidelidade,
falta de fé. E, no entanto, obstinado
quase otimista porque realista
-na reversão da contradição.
Sou um pouco o Orlando da Virginia Woolf
o Patinho Feio disfarçado de Dorian Gray
fui herói de histórias em quadrinhos
namorei estrelas de Hollywood ou,
mais terrestre, da Vera Cruz e da Atlântida
ganhei o Prêmio Nobel, a Comenda Maior
da Confraria dos Poetas Ególatras e Suicidas.
Li uma montanha inexpugnável de livros
tentei reescrevê-los, sem qualquer humildade
subi, letra a letra, degraus estonteantes
delirantes, construindo arquiteturas etéreas
no círculo vicioso das virtualidades banais.
Deveria rasgar todas as frases deletérias
todas as imprecações, todas as contrafações
verbais e venais que produzi - lixo execrável.
Deveria envergonhar-me de minha falsa polidez
de minha insensatez, minhas impropriedades
mas sempre tenho a firmeza dos inseguros
enquanto os crédulos, os convictos
não resistem às próprias contradições.
Transgredi mas, juro, apenas verbalmente.
No mais, sou casto na minha perversidade.
Sou beato na minha mais íntima heresia.
E mais despretensioso do que a minha soberba.
Quero dizer: no fundo sou inseguro e fiel
a princípios de que nem participo.
Deu para entender? Nem Deus pressente
aquela dor que finjo que deveras sinto
ao plagiar aquele poeta que nem mesmo venero.
Vou na contra-mão da ordem estabelecida
mas, disfarçando, eu vou é de costas
e não estou sozinho, participando assim
de uma nova modalidade olímpica ou acadêmica.
Os que são de Bacabal que me sigam
os que usam botas de ferro, brinco de osso
que rezam constrangidos, os desamados
os sem-biblioteca, os sem sentido.
Autorretrato
A veces soy uno, a veces soy otro:
todo el mundo es así, o es asado.
Yo, sin escapar a la regla, transgredí.
Fui, al mismo tiempo, yo y el otro
-uno hacia adentro, otro hacia los demás
pero, confieso, soy igual a todos
en un disfraz que es la otra cara
de una falsa dicotomía.
¿Maniqueísmos? ¿Llorar o placer?
Ni religioso soy, ni romántico,
mucho menos ideólogo o asumido
de cualquier cosa, en mi infidelidad,
falta de fe. Y, sin embargo, obstinado
casi optimista porque realista
-en la reversión de la contradicción.
Soy un poco el Orlando de Virginia Woolf
el Patito Feo disfrazado de Dorian Gray
fui héroe de historietas
enamoré estrellas de Hollywood o,
mas terrenal, de la Vera Cruz y de la Atlántida
gané el Premio Nobel, la Comenda Mayor
de la Cofradía de Poetas Ególatras y Suicidas.
Leí una montaña inexpugnable de libros
tenté reescribirlos, sin ninguna humildad
subí, letra a letra, escalones vertiginosos
delirantes, construyendo arquitecturas etéreas
en el círculo vicioso de las banalidades virtuales.
Debería rasgar todas las frases deletéreas
todas las imprecaciones, todas las contrafacciones
verbales y venales que produje - basura execrable.
Debería avergonzarme de mi falsa cortesía
de mi insensatez, mis impropiedades
pero siempre tengo la firmeza de los inseguros
mientras los crédulos, los convencidos
no resisten a sus propias contradicciones.
Transgredí pero, juro, solo verbalmente.
En lo demás, soy casto en mi perversidad.
Soy beato en mi más íntima herejía.
Y más despretensioso que mi soberbia.
Quiero decir: en el fondo soy inseguro y fiel
a principios de los que ni participo.
¿Entendiste? Ni Dios presiente
aquel dolor que finjo que verdaderamente siento
al plagiar aquel poeta que ni siquiera venero.
Voy en contra de la orden establecida
pero, disfrazando, voy de espaldas
y no estoy solo, participando así
de una nueva modalidad olímpica o académica.
Los que son de Bacabal que me sigan
los que usan botas de hierro, pendiente de hueso
que rezan avergonzados, los desamados
los sin biblioteca, los sin sentido.